A HIPERMODERNIDADE E O HIPEREVANGELICISMO (Marcos A M Bittencourt)

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Em Os Tempos Hipermodernos Gilles Lipovetsky aprofunda suas idéias sobre a hipermodernidade e a angústia do homem contemporâneo frente à liberdade de escolha oferecida por esta segunda modernidade. De acordo com o livro os três aspectos fundamentais da modernidade – o mercado, o indivíduo e os avanços técnico-científicos – se intensificaram a partir dos anos 50 e desde os anos 80, com a escalada da globalização, passaram a interferir diretamente nos comportamentos sociais. Lipovetsky rejeita o termo “pós-modernidade”, cunhado no final dos anos 70, em função das mudanças radicais ocorridas na arquitetura tradicional. Não que a pós-modernidade não tenha existido. Ela teve vida curta: nasceu e morreu no berçário da história. Lipovetsky prefere o termo “hipermodernidade“, por considerar não ter havido de fato uma ruptura com os tempos modernos – como o prefixo “pós” dá a entender. Segundo Lipovetsky, os tempos atuais são “modernos”, com uma exacerbação de certas características das sociedades modernas, tais como o individualismo, o consumismo, a éticahedonista, a fragmentação do tempo e do espaço. “Longe de decretar-se o óbito da modernidade, assiste-se a seu remate” (p.53), proclama o autor. É uma nova modernidade, elevada a um superlativo, “hiper”. Nesta nova modernidade o que se apresenta é a plenitude, o transbordante, o volumoso e o gigantesco. No mundo cibernético fala-se não mais em kilobites, megabites ou gigabites, mas em terabites: os milhares cedem aos milhões e, agora, aos bilhões de impulsos num computador que cabe dentro do bolso. Não se fala mais em metrópoles, mas em megalópoles “hiperpovoadas” com milhões de câmeras para vigiar milhões de pessoas. Em todas as áreas da vida implanta-se a filosofia do “hiper”, inclusive nos comportamentos individuais, os quais são direcionados para o “sempre mais”, um consumo baseado na engrenagem do extremo: os vigoréxicos insatisfeitos com o corpo que conseguem, os esportes radicais, as compulsões de nosso tempo, os vícios e os aditos cada vez mais novos e transbordantes. E tudo isso tem uma fundamentação científica: adrenalina pura! Toda essa hipermodernização traz, segundo o autor, uma espécie de niilismo técnico-mercantil, “processo que transforma a vida em algo sem propósito e sem sentido” (p.57).

            A minha idéia é que boa parte da igreja evangélica no Brasil também não resistiu às influências do tempo. A exacerbação chegou mesmo para ficar. No começo de abril de 2010, um ex-pastor da Igreja Assembleia de Deus, lançou em parceria com outro pastor norte-americano, Mike Murdock, um plano para arrecadar R$ 1 bilhão. O dinheiro seria empregado em evangelização em todo o mundo e manutenção de programas de TV em pelo menos 140 países. O plano foi batizado com o nome de “Clube de 1 milhão de Almas“. Cada fiel que aceitasse colaborar teria de doar R$ 1 mil. Pelo jeito a coisa não está andando de acordo com o sonho do pastor.

Igrejas como a Renascer, Universal do Reino de Deus, Mundial do Poder de Deus, respiram os ares do hiperevangelicismo. Não bastassem as concorrências entre as duas maiores estações de TV do Brasil para ver quem dá o maior prêmio nos seus realities shows, essas igrejas fazem o que se chamaria em “evangeliquez” (um neologismo para os cacoetes da fala evangélica brasileira) de “santa disputa”, para ver quem constrói o maior templo, quem reúne mais pessoas num culto, quem atrai mais multidões para passeatas, etc. É o que se vê recentemente com o anúncio da construção do templo na IURD no bairro do Brás em São Paulo, na arquitetura do templo de Salomão, só que bem maior que o modesto templo judaico. O da IURD terá 55 metros de altura (quase um prédio de 20 andares), maior até que a estátua do Cristo Redentor que tem 38 metros de altura. O objetivo é colocar 10.000 pessoas sentadas durante um culto.

Nessa “santa disputa”, o transbordante e o volumoso também se verificam na maneira como os líderes fundadores (ou donos) dessas hiperigrejas se autodenominam. O título de pastor (e reverendo) tão comumente usado pelos líderes das igrejas protestantes históricas já está fora de moda. O termo “bispo” traz uma idéia de supervisão bem mais classificada não tanto hierarquicamente, mas de um poder que transita mais na vaidade de ser mais, de ter mais poder, de estar mais perto de um contato com o sagrado. “Bispo” agora é fichinha. O termo “apóstolo” que, na teologia bíblica, seria mais aplicado a um ministério missional de proporções além mares, aplica-se agora aos chefes de igreja. Neologismos são criados para inflacionar ainda mais a influência dessas lideranças. Fala-se em “paipóstolo”, uma condensação dos termos “pai e “apóstolo” (Freud explica…), até porque outros pastores e bispos já foram promovidos a essa categoria e aí tem que haver alguma distinção. Mais recentemente o “paipóstolo” virou “patriarca” que, na terminologia bíblica seria o “pai dos pais”, uma lembrança das origens israelitas e seus personagens inaugurais, tais como Abraão, Isaque e Jacó. E eu que pensava que a prática da condensação de termos era mais uma alteração psicopatológica, um sintoma psicótico muito comum em distorções do pensamento e dos conceitos. Pensando bem, acho que não estou equivocado. Nessa escalada de uma nova Torre de Babel, soube até que já tem até “arcanjo”. Dentro em breve teremos uma concorrência para “Deus”. Quando isso ocorrer, a serpente sairá da cena do Éden para lembrar aos postulantes dessa posição que é só comer do fruto proibido que se fica igual a Deus.

As releituras de textos do Novo Testamento onde Jesus Cristo promete vida abundante são levadas a termos mais comerciais e consumistas nessa ordem. O hiperevangelicismo acentua o individualismo próprio das “pós” e hipermodernidade. Cada um que consiga sua bênção de acordo com o tamanho da fé que emprega, seguida, é claro de generosas ofertas. Quanto maior a oferta, maior a bênção; uma hiperoferta, sem dúvida. Mas é no Antigo Testamento que os hiperevangélicos encontram seus maiores fundamentos. Há algum tempo, pela internet, o líder do Movimento da Restauração Internacional, convidou todos a participarem do Projeto Salomão. O objetivo era o de conseguir a participação de 2.400 líderes no projeto dos “nobres”, visando a construção de um grande templo. As condições para participar desse hiperprojeto incluíam o pagamento de R$ 10.000,00, oferta essa chamada de “semente” ou “atitude” de fé, e que poderia ser parcelada mediante cheques pré-datados.

Escrevo essas linhas esperando que o povo chamado evangélico reflita em torno de sua prática atual que nada tem de relevante para uma sociedade que busca respostas para sua angústia. Saúdo Gilles Lipovetsky: seja bem vindo à nossa reflexão! Vou parar por aqui. Lembrei-me que tenho que ir ao Hipermercado, aproveitar uma hiperoferta !

Marcos Antônio Miranda Bittencourt

Pastor batista e professor do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil

Psicólogo clínico, formado pela Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE)

REFERÊNCIAS

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.