Teologia

A PÁSCOA CRISTÃ (Pr. Antonio Sérgio A. Costa, Th.D Igreja Batista Bethléem)

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A PÁSCOA CRISTÃ
 
     “Escolhei, e tomai cordeiros segundo as vossas famílias, e sacrificai a Páscoa” (Êxodo 12.21).
      “Porque Cristo, a nossa páscoa já foi sacrificado” (1 Coríntios 5.7).
 
Sua origem é tão antiga quanto à história do povo de Deus e remonta a “saída” (heb. “pesah”) do Egito sob a liderança de Moisés, o legislador e libertador dos hebreus. Assim, para os cristãos, a Páscoa é o dia e a época de cada ano quando a Igreja comemora a ressurreição de Jesus Cristo. Trata-se, portanto, de uma das celebrações mais importantes do cristianismo. Sendo a mais antiga das Festas móveis (Êxodo 12.12-28), sua data determina a maioria dos eventos no calendário da liturgia cristã.
Historicamente, a páscoa judaica relaciona-se com a décima praga que culminou com a morte dos primogênitos e a saída rápida do Egito (Êxodo 12:1-58). O sangue posto nas portas simbolizaria o sinal e a garantia de que Deus pouparia os hebreus da morte no Egito. O substantivo “pesah” (pessar) é derivado do verbo ‘pãsah’, que significa “passar por cima”, no sentido de “poupar” (Ex. 12.12-13). A páscoa é associada com a festa dos pães asmos (hag hammmassôt), quando toda levedura (fermento) deveria ser terminantemente excluída das mesas dos hebreus (Ex. 12.7). Assim, no entardecer do dia 14 de Nisã (Abibe/Abril), “os cordeiros da páscoa eram mortos e, depois de assados, comidos com pães asmos e ervas amargas” (Êxodo 12.8), o que relembrava a saída rápida e a amarga escravidão no Egito. Nos tempos do Antigo Testamento, infelizmente, os hebreus negligenciaram frequentemente a observância da Páscoa. E, como conseqüência, depois do evento pascoal celebrado no monte Sinai (Números 9.1-14), sob a liderança de Moisés e Arão, nenhuma outra Páscoa ocorreu, a não ser após a entrada na terra da promessa, ou seja, Canaã (Josué 5.10). Os reis reformadores Ezequias (2 Crônicas 30.1 ss) e Josias (2 Reis 23.21-23; 2 Crônicas 35), deram atenção à observância da Páscoa. Depois da dedicação do segundo Templo, foi celebrada uma Páscoa notável e cheia de alegria pelos hebreus (cf., Esdras 6.19-22). A experiência Páscoa devia ser repetida a cada ano, como forma de fixar na memória o grande evento libertador do povo de Deus; e, principalmente como forma de instrução às novas gerações, que precisariam conhecer o amor de Deus para com Israel (Ex. 12.24-27).
Mas, o que a páscoa representa para a igreja cristã? E, principalmente para os cristãos dos dias atuais? 
João batista, o precursor do Messias, ao ver o Cristo, afirmou: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29; 33). A morte de Jesus Cristo na época da páscoa judaica era considerada pela igreja antiga muito importante. Paulo, apóstolo aos gentios, afirma que “Cristo, a nossa páscoa, já foi sacrificado” (1 Coríntios 5.7), o que deixa claro a vinculação de seu sacrifício no calvário com a Páscoa judaica, nos termos do que Moisés ordenara aos anciãos de Israel: “Escolhei, e tomai cordeiros segundo as vossas famílias, esacrificai a Páscoa” (Êxodo 12.21). Este ato de cada família hebréia vinculava-as ao plano redentor de Deus e, desse modo, ao próprio Deus. Uma das questões debatidas ao longo dos séculos tem sido a data da celebração da páscoa. O Concílio de Nicéia (325 a.D) adotou o domingo de cada ano logo depois da lua cheia, após o equinócio da primavera (21 de março). E, numa tentativa de resgatar a unidade da Igreja, o segundo domingo de abril, tem sido adotado pelas Igrejas cristãs em todo o mundo, como forma conciliadora desta unidade. Na realidade, o que realmente importa é saber que Jesus Cristo, “o cordeiro pascal” (João 1.29; 33). foi sacrificado para a salvação de toda a humanidade (João 3.16). E, assim, todo o que nele crê será salvo eternamente, pois o seu sacrifício é suficiente para salvar e reconciliar com Deus todo o pecador que se arrepende e crer (João 3.16,17; Rom. 3.23; 6.23). Logo, tem razão o apóstolo Paulo: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).
Enfim, qual o aspecto mais importante para os cristãos hoje? Certamente, relembrar o amor de Deus revelado no sacrifício pascoal de Jesus Cristo e do qual a Ceia é uma lembrança permanente (1 Coríntios 11.23). Vital, pois para a Igreja e para todos quantos crêem. Vital, igualmente, na vida de cada pessoa e de cada família cristã. A Ceia é, sobretudo, uma lembrança do sacrifício do Cristo. Este é o real sentido da Páscoa: Deus em Cristo, incluindo-nos em sua família. A comunhão à mesa relembra a comunhão com o Messias, o redentor de Israel e da humanidade que chama os pecadores ao arrependimento e a fé; logo, para a família de Deus. Este amor incomparável chegou ao seu clímax na sua auto-identificação com o pecado do mundo no Calvário. Assim, os cristãos têm comunhão com Jesus Cristo, o cordeiro sacrificado e ressurreto por meio da lembrança de sua morte (1 Co 15.1-8). A Ceia do Senhor (Mateus 26.17-19; 26-30; 1 Co 11.23-30), é, a um só tempo: recordação do sacrifício, celebração da fé e da fraternidade que vincula a Igreja com o futuro e a glória de Cristo. Tal confiança vincula os cristãos ao seu reino que já é, mas ainda será, conforme ensina o Senhor Jesus: “E digo-vos, desta hora em diante, não beberei do fruto da videira, até aquele dia em que hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai” (Mateus 26.29). “Ora, vem, Senhor Jesus!”. Amém.
 
Feliz Páscoa!
Pr. Antonio Sérgio A. Costa, Th.D
Igreja Batista Bethléem

NÃO SE ESQUEÇA DO “PEIXE” NA SEMANA SANTA

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NÃO SE ESQUEÇA DO “PEIXE” NA SEMANA SANTA

                                                                                                                                             Marcos Antonio Miranda Bittencourt *

A semana chamada “santa” de acordo com a tradição católica sempre me deixou uma curiosidade quanto a esse título. Por que uma semana do ano é santa e as outras cinqüenta e uma semanas não são. A vida dividida em dois compartimentos, um do sagrado e outro do profano é, de fato, um legado dos antigos gregos. Esse legado influenciou a mentalidade cristã ocidental e ainda continua bem forte. Veja, por exemplo, o carnaval. Nesse período, o indivíduo passa quase uma semana se esbaldando na farra, para chegar na quarta feira de cinzas e pedir o perdão a Deus por tudo o que fez de errado, até porque nessa quarta de cinzas tem início a quaresma, período de dedicação, consagração e jejum (como era na antiguidade) de carne e de vinho, até a semana santa. Na idade média, as festas satúrnicas oriundas de Roma, bem parecidas com o nosso carnaval, eram proibidas no período da páscoa cristã. O indivíduo se tornava demônio por um período e santo em outro e, depois, demônio novamente. Um tanto barroco, não é mesmo? O problema é que cada vez mais, muitas pessoas ditas católicas não observam essa regra. Veja que mesmo na quarta feira pós-carnaval ainda tem blocos e troças saindo nas ruas das cidades. Parece que confessam a religião com os lábios, mas enterraram Deus num caixão embalado por um trio elétrico ou uma banda de frevo.

Mas tem algo nesse processo que me intriga. É que a cristandade católica romana rejeita as carnes vermelhas por ocasião da semana santa. E isso ocorre, provavelmente, devido a dois fatores: primeiro, porque na teologia católica medieval as carnes vermelhas eram consideradas estimulantes do apetite sexual, ao lado de leite e ovos (S. Alberto Magno, Sec.XIII), sendo seu uso considerado impróprio num período de consagração e jejum, como era a semana santa; segundo, porque a morte de Jesus durante a páscoa lembra que a carne e o sangue do Salvador da humanidade foram expostos na cruz, constituindo-se, assim, numa afronta ao filho de Deus, o comer carne durante a semana santa, principalmente no dia da morte de Jesus, a sexta-feira santa. Curiosamente, essas práticas católicas opõem-se às práticas judaicas de celebração pascal, posto que um cordeiro era morto no dia da páscoa para celebrá-la através de algo que hoje chamamos “churrasco”. Assim, mobiliza-se todo um comércio em torno de alimentos, como o peixe, por exemplo, vendido a preços nada convidativos nessa época.

Os protestantes e evangélicos não se vêem presos a essa tradição e se permitem transgredi-la, mas em geral, participam do cardápio católico romano na sexta feira santa. Preferem lembrar-se de um outro “peixe”, aquele que, ao lado da cruz, é um dos símbolos mais antigos do Cristianismo. Como símbolo cristão, a palavra grega para peixe, “ichthys”, formava um acróstico e era dividida como segue: I (Je­sus); ch (Cristo); th (de Deus); y (Filho); s (Salva­dor). A frase grega, por inteiro, era: Ieosous Christós Theou hyiós, Soter, ou seja: Jesus Cris­to, Filho de Deus, Salvador. Os cristãos primitivos quando perseguidos pelo poder do império romano (a “besta” que emergiu do mar, em Apocalipse 13), identificavam-se através de linguagem codificada, desenhando um peixe no chão, na areia, na pedra ou na parede. É o que vemos no famoso filme “Quo vadis” (1951). Por causa dessa confissão de fé em Jesus, muitos cristãos foram mortos, verdadeiros mártires da fé. Jesus ressuscitou e o peixe lembrava aos cristãos antigos a sua condição de servos desse Cristo ressurreto e eterno. Por isso, é desse “peixe” que não devemos nos esquecer não só na semana santa, mas em todas as semanas do ano que santificamos para Deus, sem uma vida dividida em compartimentos, mas uma vida que seja toda para a Glória de Deus, mesmo que seja no comer ou no beber (I Coríntios 10:31). Não se esqueça do peixe !!!!

 

  • O autor é psicólogo clínico e mestre em Teologia, professor do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife, nas cadeiras de Introdução ao Antigo Testamento, Hebraico Bíblico, Teologia Bíblica do Antigo Testamento, Exegese Bíblica do Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica. Site: www.marcosbittencourt.com.br  Email: marcos-bitenca@ig.com.br

CRISTO, A NOSSA PÁSCOA (Pr.Antonio Sérgio Araújo, Th.D)

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A PÁSCOA – o dia e a época de cada ano quando a igreja comemora a ressurreição de Jesus Cristo -, é uma das celebrações mais importantes do cristianismo desde tempos imemoriais. Sendo, portanto, a mais antiga das festas móveis, sua data determina a maioria dos eventos no calendário da liturgia cristã no Ocidente.

É necessário destacar que, historicamente, a páscoa judaica relaciona-se com a décima praga – a morte dos primogênitos egípcios e a saída dos hebreus do Egito(Êxodo. 12:1 ss). O sinal do sangue posto nas portas seria a garantia de que Deus pouparia os hebreus da morte no Egito. O substantivo “pesah” é derivado do verbo pãsah, “passar por cima”, no sentido de “poupar” (Ex 12.12-13). A páscoa também é associada com a festa dos pães asmos (hag hammmassôt), quando toda levedura (fermento) deveria ser terminantemente excluída das mesas dos hebreus (ex 12.7). Assim, no entardecer do dia 14 de Nisã (abibe, março/abril), os cordeiros da páscoa eram mortos e, depois de assados, comidos com pães asmos e ervas amargas (Ex 12.8), para que todos os hebreus recordassem a saída rápida, a amarga e cruel escravidão no Egito que perdurou por mais de quatrocentos anos, bem como o grande livramento do Senhor Deus, libertando-os com poder.

 Nos tempos do Antigo Testamento, os hebreus negligenciaram freqüentemente, as observâncias da páscoa.Depois do Sinai (Números 9.1-14), nenhuma ocorreu, a não ser após a entrada em Canaã (Josué 5.10). Os reis reformadores Ezequias (2 Crônicas 30) e Josias (2 Reis 23.21-23; 2 Cr 35) deram atenção à observância da páscoa. E, logo após a dedicação do segundo templo, foi celebrada uma páscoa notável e cheia de alegria (Esdras 6.19-22). Aexperiência páscoa devia ser repetida a cada ano, como forma de fixar na memória o grande evento libertador do povo de Deus; sobretudo, como forma de instrução às novas gerações, que precisariam conhecer o amor de Deus para com Israel (Ex. 12.24-27).

Mas, o que a páscoa representa para a igreja cristã? E, principalmente, para os cristãos dos dias atuais?

Antes, recordemos que, uma das questões mais debatidas ao longo dos séculos pela igreja tem sido a data da celebração da páscoa. O Concílio de Nicéia (325 a. D), – o primeiro concílio ecumênico da história da igreja, convocado pelo Imperador Constantino, em Nicéia, na Bitínia (hoje, Isnik, na Turquia)para resolver o cisma na igreja, provocado pelo arianismo (que negava a divindade do Filho de Deus). Entretanto, vale salientar que isto foi feito, teológica e politicamente, por meio de uma confissão de fé, o chamado Credo de Nicéia, redigido por mais de 325 bispos, que representavam quase todas as províncias orientais do império (onde a heresia estava centralizada) e, por uma representação simbólica do Ocidente -, adotou o domingo de cada ano logo depois da lua cheia após o equinócio da primavera (21 de março). Assim, numa tentativa de resgatar a unidade da igreja, o segundo domingo de abril, tem sido adotado pelas igrejas cristãs em todo o mundo, como forma conciliadora desta unidade.

João batista, o precursor do Messias, ao ver Jesus Cristo, afirmou: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29; 33). A morte de Cristo na época da páscoa judaica era considerada pela igreja antiga muito importante. Paulo chama Cristo de “a nossa páscoa” (1 Co 5.7 b), o que deixa claro a vinculação de seu sacrifício no calvário com a páscoa judaica e, portanto, com a salvação dos que crêem.

O aspecto mais importante para os cristãos hoje é, na verdade, relembrar que, o sacrifício de Jesus Cristo, rememorado na celebração da Ceia cristã, é símbolo do triunfo e vitória da vida sobre a morte, pois o “Cordeiro que foi morto” (João 1.29), ressuscitou, vive, reina e voltará. A comunhão à mesa relembra, portanto a comunhão do Messias com os pecadores, e que chegou ao seu clímax na Sua auto-identificação com o pecado do mundo no calvário. Desse modo, tinham comunhão com o Jesus ressurreto por meio da lembrança de sua morte.  Logo, como a Ceia os relacionava com o futuro e a glória de Cristo, ligava-os também à sua morte de uma vez por todas e, ao seu reino que já é, mas ainda será plenamente no dia final quando ele voltar para glorificar a Igreja.

Desta forma, há na celebração da Ceia do Senhor, um rememorar e, por outro lado, uma constante renovação da aliança entre Deus e sua igreja por meio de Cristo Jesus que ressuscitou e vive. A palavra “memória” (gr. anamnésis) refere-se, não simplesmente ao homem, que se lembra do Senhor Jesus, mas também à lembrança que Deus tem de seu Filho, o Messias, da sua aliança e da sua promessa de restaurar o reino. Na celebração da páscoa cristã, a Ceia do Senhor, tudo isso deve ser levado diante de Deus em verdadeira e constante oração intercessória para que Cristo reine entre os seus filhos. Que Cristo, “a nossa páscoa”, seja sempre a perene lembrança do amor de Deus para com sua igreja e toda a humanidade. Sim, amor sincero, leal e sacrificialque deve nos unir e capacitar sempre a amar uns aos outros no amor de Jesus Cristo, o Senhor. Feliz páscoa!

Pr. Antonio Sérgio de Araújo Costa, Th.D

Igreja Batista Bethléem em Vitória da Conquista, BA

                         prasergioc@hotmail.com


[1]. ENCICLOPÉDIA HISTÓRICO TEOLÓGICA DA IGEJA CRISTÃ. Vol I.,  A Ceia do Senhor, ( pp., 262-264; Concílio de Nicéia – pp. 309-311); Vol III., Páscoa, (pp., 101-103).

A BÍBLIA E COMO CHEGOU ATÉ NÓS (Pr Antonio Sérgio Araújo, Th.D)

 84a513218976dd21919b9dc6739d7825 A BÍBLIA E COMO CHEGOU ATÉ NÓS (Pr Antonio Sérgio Araújo, Th.D)A BIBLIA E COMO CHEGOU ATÉ NÓS – I *

“Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente. (Isaías 40:6).

 

Bíblia (do grego β?βλια, plural de β?βλιον, transl. bíblion, “rolo” ou “livro”) é o texto religioso de valor sagrado para o Cristianismo, pois revelado pelo Espirito de Deus aos profetas e apóstolos do Senhor. O Antigo Testamento, escrito em Hebraico, Aramaico; e, Novo Testamento, escrito em Grego Koinê (popular), totalizam 66 livros (na Bíblia Católica, 73 livros; pois eles preservaram 7 apócrifos), cujo propósito maior é revelar Deus aos homens. Logo, trata-se da Palavra viva de Deus para o seu povo e o mundo (João 5.39). É o livro mais vendido de todos os tempos, numa clara demonstração da fidelidade de Deus. Destarte, não poderia ser diferente, pois Deus almeija alcançar toda humanidade com seu amor e graça salvificos e, as Escrituras são parte deste propósito redentvo e glorioso.

 

Os cristãos creem que a Bíblia foi escrita por homens sob Inspiração Divina, mas essa afirmação é considerada subjetiva na perspectiva de uma pessoa não-cristã ou não-religiosa. Para os apóstolos do Senhor a Bíblia veio a lume pela inspiração do Espírito de Deus. São Pedro diz:, “nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens, pois inspirados pelo Espírito Santo é que homens falaram em nome de Deus.” (2 Pedro 1:21). O apóstolo Paulo afirma que “toda a Escritura é inspirada por Deus” [literalmente, "soprada por Deus", que é a tradução da palavra grega θεοπνευστος, theopneustos] (2 Timóteo 3:16). Evidentemente, os livros que hoje compõem a Bíblia não estavam todos escritos e a Bíblia não havia sido formada, entretanto alguns cristãos crêem que Paulo se referia à Bíblia que seria posteriormente canonizada. O apóstolo Pedro atribui aos escritos de Paulo a mesma autoridade do Antigo Testamento: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3:15-16).

 

São Jerônimo (Eusébio Sofrônio Jerônimo) traduziu a Bíblia diretamente do hebraico, aramaico e grego para o latim, criando a Vulgata. No Concílio de Trento em 1542, essa versão traduzida foi estabelecida como versão oficial da Bíblia para a Igreja Católica. Em meados do século XIV o teólogo John Wyclif realizou a tradução da Bíblia para o inglês. Após a Reforma Protestante a Bíblia recebeu traduções para diversas línguas e passou a ser distribuída sem restrições para as pessoas. Os primeiros registros da tradução de trechos da Bíblia para o português remontam ao final do século XIII, por Dom Dinis. Mas a primeira Bíblia completa em língua portuguesa foi publicada somente em 1753, na tradução de João Ferreira de Almeida (1628-1691). O missionário e tradutor João Ferreira de Almeida foi o principal tradutor da Bíblia para a língua portuguesa. Deus é fiel e cumpre a sua Palavra (2Tm 2.13; Jo 5.39). Deus é fiel e cumpre a sua Palavra (2Tm 2.13; Jo 5.39). Destarte, o monumental trabalho de João Ferreira de Almeida consolidou uma das mais importantes traduções da Escrituras Sagradas. Desse modo, segundo o Prof. Isaías Lobão P. Junior:

 

Em março de 1683 Almeida deu, ao Presbitério em Batávia, a notícia de que completara o Pentateuco e que esta fora revisado pelos seus colegas holandeses. Entretanto, ele não pôde completar seu trabalho. Sua tradução só chegou até o livro de Ezequiel, cap. 48, versículo 21. A última parte foi completada por Jacobus op den Akker em 1694. Depois de muitos problemas foi impresso na Batávia (em dois volumes, 1748 e 1753). O saltério de Almeida foi publicado no Livro de Oração Comum para o uso das congregações da Igreja Anglicana na Índias Orientais, em 1695. Nesta época, o rei da Dinamarca, Frederico IV, interessou-se em desenvolver no Oriente o conhecimento das Escrituras Sagradas, e pelo seu patrocínio foi estabelecido o trabalho em Tranquebar, aonde foram muitos missionários célebres. Para este trabalho foi publicada, em Amsterdã, uma 3º Ed., do Novo Testamento de Almeida, às expensas da Sociedade Propaganda do Conhecimento Cristão, em 1712. Somente no fim do século XVIII, e o princípio do XIX, a Bíblia inteira, na tradução de Almeida, foi publicada. Sob os auspícios da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, foi publicada uma edição do Novo Testamento de Almeida em 1809. Em 1819 Bíblia completa de João Ferreira de Almeida foi publicada em um só volume pela primeira vez, com o título:

A Bíblia Sagrada, contendo o Novo e o Velho Testamentos, traduzida em português pelo Padre João Ferreira de Almeida, ministro pregador do Santo Evangelho em Batávia. Londres, na oficina de R. e A Taylor, 1819 – 8º gr. de IV – 884pp. A que se segue, com rosto e numeração o Novo Testamento, contendo IV – 279 páginas.

Apesar de tudo, a tradução de Almeida encerra algumas coisas notáveis. Ela teve lugar em Batávia, na ilha de Java, milhares de quilômetros longe de Portugal. Realizou-se num a terra cuja língua oficial não era o português. Era a 13a. tradução numa língua moderna depois da Reforma. Feita por um pastor protestante, destinava-se a um país católico, como Portugal, que só poderia receber de bom grado uma tradução do Novo Testamento feita diretamente da Vulgata. E o mais dramático lance de sua grande obra é que até hoje nos países de língua portuguesa, sua tradução, mesmo que sofrendo inúmeras reformas, ainda é usada e querida.

O Padre Antônio Pereira de Figueiredo, nascido em Mação, Portugal aos 14 de fevereiro de 1725, realizou a primeira grande tradução da Vulgata para o português. Seu trabalho consumiu-lhe dezoito anos de esforços. O Novo Testamento apareceu primeiro, em 1781 e a Bíblia toda, em seis volumes, pouco depois. A linguagem de Figueiredo é inegavelmente superior à de Almeida. Alguns fatores contribuíram para esta melhora. Figueiredo possuía cultura muito superior à de Almeida e ele traduzira a Bíblia e publicara o seu Novo Testamento exatamente um século depois da obra imortal de Almeida. Embora revelando sensível melhora quanto ao português da tradução, Figueiredo não pode escapar aos defeitos de uma tradução que tem por base uma outra tradução. A Vulgata é uma mera revisão do Velho Latim, textos antigos do Novo Testamento, vertidos do grego, que Jerônimo usou para seu trabalho e com tendências peculiares. A tradução de Figueiredo tem sido usada pela Igreja Romana desde então. Ainda de acordo com o Prof. Isaías Lobão P. Junior:

As Sociedades Bíblicas empenhadas na disseminação da Bíblia no Brasil reuniram-se, em 1902, para nomear uma comissão para traduzir os textos hebraico e grego em português. Este comissão era formada de vários eruditos ligados a diversos grupos protestantes. Entre eles, o Dr. W.C. Brown, da Igreja Episcopal; J.R. Smith, da Igreja Presbiteriana Americana (igreja do sul); J.M. Kyle, da Igreja Presbiteriana (igreja do norte); A.B. Trajano, Eduardo Carlos Pereira e Hipólito de Oliveira Campos.(*) Além do texto grego e de todas as versões portuguesas existentes, a comissão tinha as seu dispor muitos comentários e obras críticas que contêm os mais novos e mais úteis resultados da investigação e estudo moderno do Novo Testamento. A Tradução Brasileira, iniciada em 1902, editando os dois primeiros evangelhos em 1904, e depois de alguma crítica e revisão, o Evangelho de Mateus saiu em 1905. Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos foram publicados em 1906, e o Novo Testamento completo em 1910. A Bíblia inteira apareceu em 1917. Apesar de suas inúmeras vantagens ela não vingou em terras do Brasil e Portugal. Deixando posteriormente de ser impressa.

Na realidade, o propósito de Deus que é tornar conhecido de toda a humanidade a sua Palavra, especialmente “Verbo Encarnado”, a palavra viva de Deus vivo (Jo 1.1 ss; I Jo1.3), vem cumprindo-se de forma paulatina e constante na medida em que as Escrituras são traduzidas para as inúmeras línguas e dialetos. A Deus toda honra, glória e louvor! Portanto, conforme o Prof. Lobão, a “história da Bíblia em português se confunde com a história das Sociedades Bíblicas. Entidades sem fins lucrativos, que foram formadas no início do século XIX, para distribuir a Bíblia. Como já foi visto anteriormente, foi a Sociedade Britânica que popularizou o trabalho de Almeida nos países de língua portuguesa”. Assim, o mais importante a ressaltar é que a Palavra de Deus tem sido colocada a disposição de todas as nações e, portanto, cumpre-se o que vaticinara o profeta Isaías: “A minha Palavra não voltará para mim vazia” (Is.55.11). Amém.

Pr. Antonio Sérgio, Th.D/Pr. Isaías Lobão

* FONTE: PIB RIBEIRÃO PRETO, SÃO PAULO.

(*) Os dados foram retirados do livro do Dr. John Mein, pai de David Mein (Ex-Reitor do STBNB; meu professor de saudosa memória): “A Bíblia e Como Chegou Até Nós” (Juerp). Que até hoje, permanece sendo a melhor referência sobre a história da Bíblia em português. Alguns eruditos, mesmo que não estivessem ligados às igrejas evangélicas contribuíram para a Tradução Brasileira. A Tradução Brasileira é reconhecida como uma das melhores traduções da Bíblia não só em português. Superior em vários aspectos à de Almeida, um texto melhor, revisões mais acuradas, e a vantagem de ter sido obra de vários tradutores. Não alcançou, porém, popularidade de Almeida. Existe hoje como referência, e alguns exemplares podem ser encontrados na biblioteca da UnB.

(**) Fontes: Texto escrito com base em fontes diversas e, sobretudo, no artigo: “A História da Tradução da Bíblia em Português”, do Prof. Isaías Lobão.

Pr. Antonio Sérgio, Th.D/Pr. Isaías Lobão

A centralidade da ressurreição de Cristo (Prof.Marlesson Rêgo)

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Marlesson Rêgo – IFPE

    Dentre os documentos produzidos pelos seguidores de Jesus de Nazaré, no Séc. I, a Primeira Carta aos Coríntios registra: “E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé (ICo 15:14)”. Nas palavras do rabino Saulo de Tarso, mais conhecido como apóstolo Paulo, a ressurreição de Cristo ocupa um papel central para dar sentido ao ensino apostólico e à vida da igreja. Mas, Paulo vai mais além, quando interpreta a morte e a ressurreição de Cristo “segundo as Escrituras (ICo 15:3,4)”, termo que o rabino Saulo usa para se referir aos textos do Judaísmo. Já que a fé judaica considera a história como o meio de revelação divina por excelência, chegamos, junto com Paulo, a uma primeira conclusão: a ressurreição de Cristo é central para dar sentido à vida dos seus discípulos, às instituições transitórias contidas no que se chama Antigo Testamento (AT) e Novo Testamento (NT), e à história humana. Vale salientar que essa interpretação da ressurreição de Cristo, em continuidade com a revelação de Deus no Judaísmo, faz parte de outros textos como, por exemplo, o livro dos Atos, quando registra o discurso de Pedro em Jerusalém: “A este Jesus, Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas (At 2:32)”. No contexto do discurso, há uma explanação sobre a morte de Jesus, sua ressurreição, ascensão e a “descida” do Espírito Santo com base nos Profetas. E aqui, chega-se a um ponto que exige discernimento: se, por um lado, Jesus era judeu, confrontado com a Lei e as promessas do AT, não é possível entender o significado da ressurreição por seus intérpretes, também judeus, senão em uma linha de continuidade com os eventos do AT. Logo, o Cristianismo (messianismo) depende do AT para dar sentido ao discurso da ressurreição. Por outro lado, o sentido dado à ressurreição implica em uma relativização das estruturas e tradições do AT, pois, agora, a esperança, o amor e a aceitação do outro, passam a ser mais importantes do que as tradições. Isto, porque, quando “Deus ressuscitou a Jesus” confirmou a aprovação do Pai em relação aos ensinos do Filho, rejeitado por aqueles que valorizavam mais as estruturas (cargos, templos, rituais, etc.) do que as relações entre as pessoas.

    Mas, a ressurreição de Cristo é central em dois outros aspectos: 1) não poderia haver ressurreição de alguém antes da de Cristo (Evangelho de Mateus 27: 53). Por isso, o NT afirma que “Cristo é as primícias dos que dormem”; 2) por causa disto, não convém falar da revivificação (devolver a um cadáver a vida que ele tinha antes) de Lázaro como “Ressurreição de Lázaro”, e sim que Lázaro “tornou a viver” como um sinal transitório de algo maior e definitivo que estava para vir. Logo, a ressurreição de Cristo marca o início de uma vida nova, de um novo sentido para a vida. Daí o termo “Novo Testamento”, como “nova aliança” ou garantia de uma “nova herança”.

    Assim, quando Paulo teme pela “fé ilusória (ICo 15:17)” dos Coríntios, sua preocupação era a inevitável tristeza de uma vida sem sentido, vazia, sem esperança na ressurreição daquele que ensinou como  ninguém o amor e a aceitação do próximo, o que se chama tolerância. Desse modo, desejo que todos tenham uma feliz Semana Santa, sem ilusões, vivida na centralidade da ressurreição de Cristo.

GÊNERO FEMININO E SOCIEDADE (Prof.Marlesson Rêgo)

c9931be00686eaf69179265dea8db9dd GÊNERO FEMININO E SOCIEDADE (Prof.Marlesson Rêgo) Gênero Feminino e Sociedade

Marlesson Rêgo – IFPE

    O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, foi inspirado em dois eventos históricos: o protesto das tecelãs de New York, em 1857, e o das tecelãs russas, em 1917. No primeiro evento, as mulheres trabalhavam mais de 10h por dia com salários menores (um terço) do que o dos homens; no segundo evento, a greve foi por melhores salários e pela saída da Rússia da I Guerra Mundial, movimento conhecido como “Pão e Paz”. Tais eventos inspiraram os movimentos feministas do Séc. XX, na busca de justiça nas relações entre gêneros e a participação das mulheres na construção de uma sociedade melhor. Deste ideal participam homens e mulheres, que reconhecem a existência de diferenças psico-biológicas entre seres humanos, sem que isto seja motivo para desigualdade de direitos humanos.

    O desequilíbrio na relação entre gêneros se verifica quando desaparecem o diálogo e a cooperação, passando a existir o monólogo e o domínio de um gênero sobre o outro. De fato, o paradigma do domínio tem dirigido as ciências naturais, na busca do domínio da natureza pelo homem, no interesse da técnica, e as ciências histórico-interpretativas, como a política, o direito e a teologia, no interesse do controle social. Porém, o mal-estar mundial clama por um interesse reflexivo que, segundo o filósofo Jürgen Habermas, pergunta pelo que somos e o que fazemos. As evidências do que se faz são terríveis: mulheres vítimas de violência física moral e psicológica, imposta por “companheiros” ou homens em geral, que as consideram culpadas da própria violência sofrida. Quanto ao que somos não há justificativa para qualquer violência, senão o desejo de domínio dissimulado por uma suposta “objetividade” defendida em discursos políticos e religiosos.

    Na política do Brasil, mais um passo na direção de um bem-estar social foi dado com a eleição de uma mulher como presidente, de quem se espera uma estrutura que torne efetiva a Lei Maria da Penha, além de um projeto educacional que inclua o tema “relações de gênero”.

    Quanto à tradição judaico-cristã, é bom lembrar que o termo hebraico Iahweh, como nome de Deus, significa “Eu Sou”, um verbo que aponta para uma essência e não para uma contingência ou substantivo classificado como masculino ou feminino. Além disso, o modo como Jesus de Nazaré trata Deus, como “Pai”, não invalida nem diminui o modo como o profeta Isaías anima o povo quando afirma que “Deus consolará os aflitos, assim como uma Mãe consola os seus filhos”. Nos dois casos, a ênfase é dada ao cuidado amoroso, por meio de metáforas tiradas do cotidiano para expressar percepções parciais da ação divina. A teologia não “domina” Deus, como objeto totalmente conhecido e, por isso, não pode atribuir a Deus um gênero, como se atribui a um ser humano. Mas, deve respeitar a narrativa do Gênesis, quando registra que “Deus criou o ser humano à sua imagem, homem e mulher os criou”. Logo, a imagem de Deus está no ser humano, não em um gênero específico. Assim, a ordem “crescei e multiplicai-vos” tem sido cumprida na segunda parte. Nosso crescimento, como seres humanos, depende de relações maduras entre homens e mulheres, onde o domínio infantil dê lugar à maturidade de uma sociedade cujas regras de convívio sejam baseadas na admiração e respeito mútuos entre gêneros diferentes de uma mesma humanidade.

AS LACUNAS EXISTENCIAIS E O AMOR (Prof.Marlesson Rêgo)

6058f655fd6d39fa1e386d551874722f AS LACUNAS EXISTENCIAIS E O AMOR (Prof.Marlesson Rêgo)As lacunas existenciais e o amor

Marlesson Rêgo – IFPE

Durante a semana de 13 a 20 de fevereiro de 2011, a ilha italiana de Lampedusa foi palco das atenções da União Europeia. Mesmo o idealizador de um monumento existente na ilha, como homenagem aos esporádicos imigrantes do passado, não poderia imaginar que os ventos de liberdade, circulando atualmente no norte da África, fossem capazes de trazer 5000 pessoas da Tunísia, através do Mediterrâneo, em curto intervalo de tempo. O administrador da ilha, Bernardino De Rubeis, comentou: “O êxodo registrado nestes últimos dias para Lampedusa tem dimensão bíblica, um número jamais registrado”.

Enquanto a Parlamento Europeu afirma que não há lacunas de emprego capazes de acolher tantos imigrantes, o comentário do autarca de Lampedusa sugere que há algo em comum entre o fenômeno atual e aquele descrito na narrativa bíblica, no livro Êxodo: vidas humanas com lacunas existenciais abertas por regimes totalitários, que fazem do medo um instrumento de controle social. Com o termo “lacunas existenciais” me refiro à ausência de experiências capazes de nos fazer conhecedores de alguns valores como, por exemplo, a liberdade, a começar pela liberdade de consciência em relação a uma realidade que pode ser modificada na medida em que participamos dela.

Assim como o Universo em expansão sugere uma natureza que tem “horror ao vazio”, há uma dimensão “cósmica” no ser humano que o leva a buscar o preenchimento de lacunas existenciais como um aspecto do processo de amadurecimento. No início da vida, conhecemos apenas necessidades (fome, sede, etc); depois, na juventude, recebemos informações sobre a vida, mas ainda não vivemos tais conteúdos; então, chegamos à maturidade, onde fórmulas e palavras dão lugar a gente, lugares e ações; onde se trabalha pela felicidade, onde esperança não é esperar sentado, mas agir de acordo com aquilo que se espera. Entram aí outras dimensões do tato na mão que pega em outra mão, do abraço que aquece no frio, de olhos que se olham, da cabeça erguida, do som de uma voz gentil e que anima. E mesmo querendo vitórias, somos capazes de enfrentar derrotas, desde que possamos gozar da liberdade para agir em favor da vida sem medo.

O paralelo entre a “terra prometida” e Lampedusa procede: no passado, gente que amou a vida preferiu enfrentar perigos no deserto a viver com medo de ser feliz o resto da vida; em nome dessa liberdade, os tunisianos enfrentaram perigos no Mediterrâneo, uma noite e um dia, na busca de trabalho. E, ainda que alguns não tenham conseguido atravessar, uma tunisiana declarou: “26 pessoas morreram na travessia; mas é melhor morrer no mar, livre, do que viver em terra com medo”.

Entre os textos considerados cristãos, encontra-se: “Não há medo no amor; ao contrário: o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo implica em castigo” (I Carta de João, 4:18). Ora, se o castigo é penalidade pelo erro, e não há erro quando a ação é em favor da vida, logo, qualquer castigo por isso é injustiça.

Hoje, perto do antigo monumento de Lampedusa, há um Centro de Acolhimento na ilha, porque somente um amor acolhedor é capaz de fechar nossas lacunas existenciais.

RAZÃO E EMOÇÃO (Prof.Marlesson Rêgo)

87f00e69b95ca30e61ac9078e25b42cf RAZÃO E EMOÇÃO (Prof.Marlesson Rêgo) Razão e Emoção

Marlesson Rêgo – IFPE

    Enquanto os analistas se posicionam em relação ao impacto da revolução egípcia no Oriente Médio pós-Mubarak, a história oferece mais um exemplo de uma crise resultante de decisões políticas tomadas com inteligência, mas sem sensibilidade, durante 30 anos. É o que se chama de “inteligência cega”, voltada para os detalhes técnicos, mas sem qualquer respeito pelos seres humanos. Por outro lado, a população, indignada, fez uso de um instrumento racional, a “internet”, para fazer convergir emoções individuais na direção de um grande movimento de comoção nacional visando à reestruturação da realidade e a uma nova Constituição. Trata-se de um movimento sem um líder específico, que demonstra a força construtiva inerente ao equilíbrio entre razão e emoção.

    Há  vinte séculos, Jesus de Nazaré, um carpinteiro judeu, entrou no Templo de Jerusalém e ficou indignado com o que viu: “E entrando no Templo, ele começou a expulsar os vendedores e compradores que estavam lá, virar as mesas dos cambistas [...] e ensinar-lhes dizendo: ‘Não está escrito: minha casa será chamada casa de oração? Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões!’” (Evangelho de Marcos 11:15-17). Assim, o personagem central do cristianismo já ensinava que qualquer instituição, inclusive a religiosa, que perde de vista as necessidades existenciais do ser humano, em favor de interesses patrimoniais de grupos específicos, torna-se opressora. Neste caso, a razão que retoma princípios se apresenta ao lado da emoção associada à indignação com a injustiça, que promove as mudanças.

    No Séc.XX, o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), em Esquisse pour une théorie des émotions (Esboço para uma teoria das emoções), entende a emoção como uma reação ao mundo, que integra o ser humano ao mundo tornando-o capaz de realizar mudanças em favor da vida. Em outras palavras, quem não se emociona ou age com indiferença é incapaz de contribuir para um mundo melhor. Vale salientar que a primeira peça teatral de Sartre foi escrita e encenada com os colegas de cárcere, capturados pelas tropas alemãs, com o fim de alegrá-los. A perspectiva ocidental de Sartre, a respeito da relação entre razão e emoção, sugere um tema humanista de importância universal, acima de ideologias religiosas ou políticas.

    No contexto brasileiro atual, as manifestações de um “cristianismo triunfalista”, que vê a dor e o sofrimento como expressões de “falta de fé”, não tem fundamento em Jesus de Nazaré nem na história da filosofia ou da história geral. Logo, só pode ser resultado de um emocionalismo cego (sem razão), sem legitimidade em textos judaico-cristãos. Jesus de Nazaré sofreu e morreu crucificado por defender a liberdade como um valor divino, aliado à justiça como justa medida. E mesmo reconhecendo a morte como uma realidade, não deixou de chorar diante de Lázaro morto, um amigo a quem amava (Cf. Evangelho de João 11).

    Se for verdade que “o sábio tem olhos, mas o tolo caminha na escuridão”, como pretende ensinar o escritor do livro judaico Eclesiastes, nossa luta deve ser contra a “inteligência e a emoção cegas”. Pois os olhos capazes de ver beleza são as janelas de uma alma que abriga um equilíbrio entre razão e emoção.

O NATAL E UM ANO DE GRAÇA DO SENHOR (Marlesson Rêgo)

 570582cbc219380fd29e64e97eafa3b8 O NATAL E UM ANO DE GRAÇA DO SENHOR (Marlesson Rêgo)O natal e um ano de graça do Senhor

Marlesson Rêgo – IFPE

    Há  dois modos de considerar o tempo: a) quantitativo, pela contagem do número de vezes que um evento se repete periodicamente, regido por princípios ou leis naturais. Por exemplo, o ciclo da Terra em torno do Sol, que define um ano terrestre e o calendário solar romano. Mas, isto exige que se adote um evento como marco “zero” da contagem. O que nos leva ao modo (b) qualitativo, pela valorização de um evento em nossas vidas. Por exemplo, a natividade de Jesus de Nazaré, que define os anos antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.). É do modo qualitativo que também se diz que alguém “nasceu de novo” quando se percebe um evento histórico que fez a diferença entre a morte e a vida, como uma libertação de uma situação onde a vida estava ameaçada. Além disso, esse “novo tempo” é visto como uma mudança de valores e de qualidade de vida proporcionados pelo favor divino ou pela graça de Deus. É nesse sentido que o Evangelho de Lucas, depois de registrar os eventos associados ao nascimento de Jesus de Nazaré, apresenta os sinais de um novo tempo em Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pala unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4:18,19). Trata-se de uma leitura pública do texto do profeta Isaías, feita por Jesus na Sinagoga de Nazaré, com uma conclusão surpreendente: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lc 4:21). A surpresa é por conta do “Hoje” que Jesus destaca para afirmar que nos seus dias, e através dele, um novo tempo se inicia pelo cumprimento de uma vocação entendida nos termos do antigo texto do profeta Isaías. Pelo texto, o vocacionado é “ungido” pelo Espírito do Senhor e não por algum óleo ou azeite derramado sobre a cabeça, como se costumava fazer com reis, profetas ou sacerdotes. Isto significa que tal símbolo de uma experiência com Deus é substituído pela própria experiência de uma relação pessoal e prazerosa com Deus, cujos benefícios são públicos e notórios: levar uma boa notícia aos “pobres”. No contexto de Lucas, trata-se dos que sofrem opressão externa, agredidos que não podem se defender, que passam fome, que estão doentes.  No contexto do Evangelho de Mateus, trata-se dos que sofrem opressão interna porque estão “presos” à culpa que entristece e desespera não permitindo que se veja salvação. A boa notícia é a libertação de qualquer situação que leve ao desespero ou falta de esperança, caracterizando um novo tempo chamado de “ano da graça (aceitável) do Senhor”. A expressão se refere à instituição do Ano do Jubileu (Levítico 25), pela qual a cada 50 anos todos os que se tornaram escravos por dívidas deveriam ser libertados, o que nos ajuda a entender o sentido bíblico de um tempo “pentecostal” cuja realização mais profunda se dá em Jesus, o Cristo, por meio de quem vieram a graça e a verdade que libertam (cf. Evangelho de João 1:17).

    O natal de Jesus Cristo abre um novo tempo, no qual a graça de Deus é oferecida a qualquer um que se veja em estado de sofrimento (“pobreza”). Por isso, diante do ano de 2011 como mais um ano civil, o natal de Jesus me permite desejar aos homens, mulheres e crianças um Feliz Ano Novo, como um ano de graça do Senhor.

OS SÍMBOLOS E A EXPERIÊNCIA DO NATAL (Marlesson Rêgo)

 6ed3e5b66ef00eb78c6a0a79dc18150f OS SÍMBOLOS E A EXPERIÊNCIA DO NATAL (Marlesson Rêgo)Os símbolos e a experiência do Natal

Marlesson Rêgo – IFPE

    Passados vinte séculos no calendário romano, desde a natividade de Jesus de Nazaré, o Cristo, vários são os símbolos associados ao Natal: um presépio, uma árvore com presentes, comidas típicas em uma ceia, além de expressões artísticas, como o Baile do Menino Deus, o livro Um Conto de Natal ou o quadro A Natividade, entre outros. Os símbolos natalinos indicam uma riqueza a ser sempre descoberta e experimentada: a riqueza do amor de Deus. Pois assim registra o Evangelho de João: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Assim, reconhecendo que há uma distância insuperável entre o que é anunciado e a capacidade do ser humano para expressar o amor de Deus, por meio de símbolos lingüísticos, o evangelista recorre à experiência histórica da natividade de Jesus como expressão do amor de Deus pela humanidade. Desse modo, é mantida a forma como a tradição bíblica expressa o dinamismo do amor de Deus, começando pelo amor que cria um ambiente adequado à vida humana (Gênesis), passando pelo amor salvador que liberta da escravidão coletiva (Êxodo), e que se mostra atento à necessidade individual do órfão, da viúva, do escravo e do estrangeiro (Êxodo e Profetas). Nessa linha, o texto joanino anuncia o amor na forma de uma dádiva ou presente de Deus para nós, humanos cheios de potencialidades e carentes de orientação, como se fôssemos barcos com motores potentes, mas desorientados, navegando em um oceano tempestuoso em busca de uma terra de paz. E o objetivo do presente é claro: para que não pereçamos.  Pelo contrário, para que participemos da vida que há em Deus.

    Mas, a compreensão e o devido reconhecimento ou celebração do Natal não se limita ao acúmulo de símbolos, nem mesmo na consciência histórica do processo que os originou. É necessário irmos ao núcleo vital da experiência que dá sentido às várias expressões: o princípio do a mor. Isto significa que o Natal de Jesus precisa ser vivenciado cordialmente e reinterpretado sempre, à luz da experiência do amor. Porque se, por um lado, experiência sem expressão é cega, por outro lado, expressão sem experiência é vazia.

    Viver a experiência do Natal é um desafio para nós, seres humanos, pois precisamos mudar a perspectiva sobre nós mesmos, a partir do modo de ver o personagem central do Natal, Cristo: “sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer em sua pobreza” (II Coríntios 8,9). A riqueza do amor de Deus abraçou os necessitados, chamando-os para participar de uma Ceia com Ele. Esta expressão de comunhão se desdobra em doação mútua entre aqueles que participam do dom da vida, celebrado no Natal como a prática do amar e ser amado(a). Para tanto, em lugar da miséria da “cegueira espiritual” e da intolerância, precisamos dar lugar ao Cristo, não em uma manjedoura, mas em nosso coração. Afinal, acima dos símbolos culturais está a capacidade de amarmos e sermos amados(as) em qualquer cultura. Assim sendo, desejo a todos vocês, leitores e leitoras, homens, mulheres e crianças, todos amados por Deus em Cristo, a experiência de um Feliz Natal, com a Paz de Cristo no coração.