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TRADICIONAL NO MODERNO E O MODERNO NO TRADICIONAL: ADORAÇÃO EM UM NOVO TEMPO (Por Marcos Bittencourt) – Conferência proferida no Congresso de Louvor e Adoração da Igreja Batista do Cordeiro em novembro de 2007.
Antes de entrarmos na discussão do tema, se faz necessária uma definição de alguns termos utilizados para descrever a música que cantamos.
TRADICIONAL – É a música que tem raízes no passado. Fruto de transmissão oral, sofre evolução e é permeável às influências culturais estrangeiras. Não nasce como um objeto estético que se admire por si só, mas como uma música funcional associada às difíceis condições de vida de um povo. Representa a psicologia, o modo de vida de um povo, subsistindo como memória, chegando mesmo confundir-se com a música folclórica.
SACRA – Em sentido mais restrito é a musica erudita própria da tradição judaico-cristã. O termo surge na idade média, com o advento do canto gregoriano e designava mais a teoria musical específica para a música missal. A música sacra foi desenvolvida em todas as épocas da história da música ocidental, desde o Renascimento (Palestrina), passando pelo Barroco (Bach e Haendel), pelo Classicismo (Mozart, Haydn, Nunes Garcia), pelo Romantismo (Bruckner, Gounod) e finalmente o Modernismo (Penderecki, Amaral Vieira).
CONTEMPORÂNEA – É a música erudita dos séculos XX e XXI, criada após os movimentos impressionista e regionalista. Considera-se também contemporânea a música eletrônica surgida na Alemanha a partir da década de 1930. Destituído de uma tendência uniforme, o rótulo “contemporâneo” beira mesmo ao relativismo da compreensão de quem ouve; na maioria dos casos o compositor encontra-se vivo na época de sua locução.
MODERNA – É a música pós-romântica, cujas tendências surgiram durante a primeira metade do Século XX, de caráter quase exclusivamente experimental. No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922 representou o marco histórico dessa modalidade. Esse tipo de música rompeu com as convenções e regras musicais estabelecidas até então, valorizando a inovação e a criatividade. Stravinsky, Ravel, Schoenberg, Gershwin, Villa-Lobos, entre outros.
GOSPEL – Gênero musical contendo mensagens bíblicas, de forma direta e/ou indiretamente. Desde os primórdios, a música que exalte o Deus Todo-poderoso sempre existiu na tradição dos hebreus (prova disto, é o livro de Salmos do Antigo Testamento). A partir de Jesus, as músicas religiosas passam a conter mensagens do evangelho. A música gospel sempre existiu, talvez não com essa denominação específica. O início do destaque desse estilo musical teve origem afro-americana, nascido nas fazendas de escravos no sul dos Estados Unidos. Os escravos cantavam músicas religiosas com mensagens escondidas em suas letras. As mensagens poderiam conter informações sobre terrenos, quais estradas e rios evitar e números de homens patrulhando tais estradas e rios. Essas canções eram cantadas pelos escravos presos, durante a noite, quando se sabia que havia escravos em fuga a fim de orientá-los rumo ao norte livre. Esse costume continuou quando os escravos foram libertados invadindo igrejas e templos afro-americanos por todo os Estados Unidos.
Percebo que usamos comumente e de forma equivocada para nos referirmos à música que cantamos atualmente em nossas igrejas os termos “Gospel” e “Sacra”. Usarei os termos tradicional e moderno no seu sentido diacrônico, ou seja, tradicional é a música mais antiga, representada pelos hinos e moderna a música mais recente, representada pelos corinhos ou “cânticos espirituais”, pelas bandas e música coral jovem, próprios da 2ª metade do Século XX.
CARACTERÍSTICAS DA MÚSICA EVANGÉLICA MODERNA:
• Maior participação congregacional, em contraste aos tradicionais solistas, duetos, trios, quartetos e coros;
• Harmonia e ritmo de estilo popular; utilização de aparelhagens de som cada vez mais sofisticadas, com a produção sonora nem sempre equilibrada;
• Cânticos ecumênicos, sem barreiras denominacionais (“Os sonhos de Deus”, de Ludmila Feber, cantado por todos os evangélicos; “Fico feliz”, de Aline Barros, cantada pelo Pe.Marcelo Rossi);
• Ênfase rítmica com coreografias;
• Não se percebe nesses cânticos a tradicional divisão de “música para jovens” e “música para adultos e idosos”, como existia há mais de três décadas nos arraiais evangélicos;
• Algumas de suas letras são de teologia questionável, com ênfase em temáticas específicas (Adoração, Fé), muitos deles cantados na 1ª pessoa do singular, retratando muito do individualismo próprio dos nossos tempos.
• Música de mercado; pode-se mesmo falar de uma música de consumo. O povo evangélico é um ótimo consumidor. Empresários “não necessariamente” evangélicos descobriram isso e fazem dinheiro através da chamada música Gospel. Uma boa parte da música para o “louvor” de muitas comunidades reflete a influência da indústria fonográfica com a música-mercadoria, caracterizada por uma “padronização”, uma repetição, em todos os sentidos, abafando a criatividade da igreja local.
• Música “descartável” na sociedade do descartável. É o que podemos chamar de arte para o momento ou música para o momento. A função duradoura é irrelevante e a presença da qualidade é, geralmente, inversamente proporcional à duração do uso.
HISTÓRIA- Até a época da reforma a música sacra se resumia ao Canto Gregoriano (Papa Gregório Magno, 590 dC) e à Polifonia. A participação de fiéis no canto congregacional tinha sido proibida desde 364 dC com o Concílio de Laodicéia. É no Século XVI, com Lutero que se reclama a participação dos fiéis no canto congregacional e na língua vulgar, iniciando-se uma nova época musical. Cento e cinqüenta anos depois de Lutero, o Pr.Benjamin Keach introduz o cântico congregacional nas igrejas batistas inglesas, ao cantar um hino após a celebração da ceia, permitindo àqueles que não aprovassem a idéia que saíssem antes do cântico do hino. Keach baseava-se em Marcos 14:26. Keach utilizou a estratégia de ensinar cânticos às crianças, futuros líderes da igreja. Isso foi em 1673. Vários membros de sua igreja o deixaram e Keach, com muita paciência, levou 22 anos para que os cânticos fizessem parte da ordem de culto de sua comunidade. Ora, houve um tempo em que sequer cantávamos e quando começamos a cantar nos cultos, só podíamos fazê-lo “à capella”. E quando nos foi permitido cantar com instrumentos só podíamos com piano, órgão ou harmônio. E quando nos foi permitido tocar um outro instrumento foi o violão. Guitarra não, guitarra era do diabo! O trio elétrico já utilizava uma. E quando deixaram usar a guitarra, limitaram a bateria. Bateria e quaisquer outros instrumentos de percussão lembravam o mundão e os batuques do Candomblé.
A grande contribuição da História é a de revelar para nós a transitoriedade do tradicional e do moderno. Qual o limite entre o tradicional e o moderno? Quanto tempo o moderno será moderno até se tornar tradicional? O tradicional geralmente é santificado e o moderno, demonizado. Isso existe por conta de um preconceito velado de que a música do céu é a música WASP (White Anglo-Saxon Protestant) Branco, Inglês ou Alemão e Protestante. Estas pessoas que pensam desta forma tem o mesmo raciocínio que inspirou os movimentos radicais racistas, tais como Hitler, Ku-Klux-Klan, etc. Dizer que o produto cultural proveniente da Africa é do inimigo é também uma forma velada de racismo. Alegam a associação desses ritmos com o mundano. O hino “Castelo Forte”, composto por Lutero, é emprestado de uma canção popular cantada nos bares alemães de sua época. Algumas denominações religiosas fazem o que Lutero fez, santificam ou procuram mudar o significado mundano associado à música. Outras esperam 20 anos aproximadamente ou o tempo necessário para a associação deixar de existir e então passam a utilizar o determinado estilo em sua liturgia. O pensamento de Lutero é seguinte, só porque o inimigo usou primeiro, não quer dizer que ele é o dono desta combinação. Quando “Noite Feliz” foi publicada, George Weber, diretor musical da Catedral de Mainz a chamou de vulgar, vazia de religiosidade e de sentimentos cristãos. Charles Spurgeon, grande pregador e pastor inglês, detestava as canções contemporâneas de seus dias, as mesmas que hoje são chamadas “hinos”. Pasmem, até mesmo o Messias, de Haendel, foi amplamente condenado como “um teatro vulgar” pelos religiosos de seu tempo. Quando eu era criança fui asperamente repreendido por um pastor batista no interior da Bahia, porque estava utilizando meu violão para tocar hinos na igreja. Os cânticos dos Vencedores por Cristo que, na época, assustavam os mais tradicionais, hoje estão no HCC (Hinário para o Culto Cristão) dos Batistas. Muitos músicos cristãos criativos, compositores, arranjadores e orquestradores, são questionados com a alegação de que eles introduzem elementos estranhos ao gosto musical de seu tempo; sendo assim é fácil afirmar que eles copiam o mundo e não imitam a música do Céu. Mas como poderemos imitar o céu sendo se ainda não estivemos lá? Os compositores mais marcantes e reconhecidos como inovadores ou gênios da música, são aqueles que romperam com o tradicional ou comum em sua época e criaram algo diferente. Se tornaram modernos e agora são tradicionais. Minha geração está aprendendo a resolver isso em relação às gerações passadas. Mas será que teremos a mesma reflexão em relação às futuras gerações? Que tipo de música nos aguarda à frente?
Para o Dr Alcingstone Cunha (2004) é fundamental a reflexão em torno da História. Enfrentamos hoje situações difíceis como fruto da pouca reflexão no passado sobre a música que cantamos em nossas igrejas. As discussões em torno do assunto, na maioria das vezes, recorrem a um subjetivismo exagerado e o resultado é a predominância de duas linhas de pensamento: a música que as pessoas gostam e a música que as pessoas conhecem. Essas duas linhas manifestam-se como força impulsionadora do entendimento de muitos sobre a música sacra e projetam-se no discurso de vários membros da liderança. A conseqüência mais séria causada ao abraçar apenas essas duas alternativas é a falta de visão das possibilidades e ideais a serem alcançados a curto, médio e longo prazo. As decisões a serem tomadas concernentes à música sacra não devem basear-se apenas no costume e na tradição daquela igreja, mas, também, nas necessidades daquela comunidade cristã. Cada igreja, prossegue CUNHA, tem as suas características próprias e está inserida numa realidade sócio-cultural específica. Esses aspectos concorrem para a diferenciação entre as muitas igrejas batistas. Podemos questionar: será que uma igreja batista no interior do Amazonas tem as mesmas características musicais de uma igreja no interior do Rio Grande do Sul? E quanto à liturgia delas? Elas têm a mesma estrutura litúrgica? (Será que precisam ter a mesma estrutura?) Mesmo dentro do campo comparativo em nossa cidade devemos refletir sobre a tendência de se classificar a música executada na igreja como: tradicional, “contextualizada”, moderna, contemporânea, “animada”, parada, antiga, adormecida, tradicional. Na maioria das vezes busca-se o fundamento para tais classificações achando-se que a música na igreja A é “melhor” do que a da igreja B. A questão de a música ser “melhor” na igreja A é um tanto quanto relativa. Deveríamos, sim, perguntar: “será que o programa musical desenvolvido atende às necessidades daquela igreja específica?” Minora-se aqui o sofrimento resultante da luta entre o tradicional e o moderno.
Gostaria de concluir essa breve reflexão sobre o tradicional e o moderno, deixando duas propostas de norteamento da música tradicional ou moderna. Refiro-me, primeiramente ao legado de Edgar Willems (1961) e seus estudos sobre musicoterapia e educação musical. Para Willems, a música não é uma simples realidade material exposta à apreciação estética, mas é portadora de uma energia vital capaz de produzir no ser humano reações vitais importantes tais como ânimo, relaxamento, coragem, enlevo espiritual, alegria, luto, tristeza, paixão, entre outros. Nesse aspecto possui um grande poder comunicativo. Às vezes não precisamos abrir a boca para falar o que sentimos em relação a uma pessoa: basta tocar uma música para ela e teremos dito tudo. Em sua natureza a música possui, segundo Willems (apud Mathias, p.22), três elementos fundamentais: o ritmo+som, a melodia e a harmonia que, na musicoterapia, são tratados como paralelos com elementos constitutivos da natureza humana, a saber, a vida fisiológica, a vida afetiva e a vida mental. A relação entre a natureza musical e a natureza humana é de ordem tributária.
Ritmo+som: movimento do corpo humano ligado às batidas do coração, ao andar, ao respirar- material e fisiológico.
Melodia: Intimamente ligada ao afetivo, traduz sentimento, emoção, a “melodia interior” que devemos ouvir.
Harmonia: É o racional que entra em cena para realizar a junção do afetivo (melodia) com o físico (ritmo) num todo harmonioso.
VIDA HUMANA
RITMO MELODIA HARMONIA
Vida Fisiológica Vida Afetiva Vida Mental
SOM ARTE
Ora, quando interpretamos esses elementos à luz da experiência religiosa, vemos a importância do equilíbrio dessas três partes para expressar a nossa relação com Deus.
Por fim, refiro-me ao legado de Francis A. Schaeffer, em sua análise da arte representativa (SCHAEFFER, 1973, pp. 41-48), na qual, faz uma adaptação para a música evangélica, discorrendo sobre quatro critérios que podem ser usados para aferirmos uma obra de arte musical, qualquer que seja ela, tradicional ou moderna. São eles:
a) excelência técnica: a união entre texto e música; o complexo harmônico; a objetividade da escrita musical mesmo usando elementos intricados.
b) validabilidade (legitimidade): está o artista cristão fazendo arte para somente ganhar dinheiro e fama? Será que a preocupação dele ou dela é ser aceito pelo grupo?
c) conteúdo intelectual: que princípios estão sendo passados através do que cantamos? Em que tem os artistas têm baseado suas composições? Nas Escrituras Sagradas?
d) harmonização entre o conteúdo e o veículo transmissor: o compositor evangélico precisa refletir se o mais importante é o estilo de sua música ou a mensagem dela. Será que esse estilo musical está mais adequado ao texto do que vai ser cantado?
REFERÊNCIAS
BRAGA, Henriqueta Rosa Fernandes. Música sacra evangélica no Brasil: contribuição à sua história. Rio de Janeiro: Kosmos Editora, 1961. 448 p.
CUNHA, Alcingstone. A Música e o Louvor para um Novo Tempo. Recife: 2004. Disponível em <http://www.teologica.br/files/MusicaeLouvorNovoTempoTony.doc> acesso em 02 nov 2007.
MATHIAS, Nelson. Música e seu ministério na igreja. Brasília: Musimed Editora, 1997. 89p.
SCHAEFFER, Francis A. Art and the Bible. Illinois: InterVarsity Press, 1973. 63 p.
WARREN, Rick. Igreja com propósitos. 2ed. São Paulo: Ed.Vida, 1999. 392p.
<http://www.todoexpertos.com/categorias/humanidades/historia/respuestas/807375/la-reforma-protestante-y-la-musica> acesso em 02/11/2007
| O TRADICIONAL NO MODERNO E O MODERNO NO TRADICIONAL: ADORAÇÃO EM UM NOVO TEMPO (Prof. Marcos A M Bittencourt) |
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| TRADICIONAL NO MODERNO E O MODERNO NO TRADICIONAL: ADORAÇÃO EM UM NOVO TEMPO (Por Marcos Bittencourt) – Conferência proferida no Congresso de Louvor e Adoração da Igreja Batista do Cordeiro em novembro de 2007. |
Antes de entrarmos na discussão do tema, se faz necessária uma definição de alguns termos utilizados para descrever a música que cantamos.
TRADICIONAL – É a música que tem raízes no passado. Fruto de transmissão oral, sofre evolução e é permeável às influências culturais estrangeiras. Não nasce como um objeto estético que se admire por si só, mas como uma música funcional associada às difíceis condições de vida de um povo. Representa a psicologia, o modo de vida de um povo, subsistindo como memória, chegando mesmo confundir-se com a música folclórica.
SACRA – Em sentido mais restrito é a musica erudita própria da tradição judaico-cristã. O termo surge na idade média, com o advento do canto gregoriano e designava mais a teoria musical específica para a música missal. A música sacra foi desenvolvida em todas as épocas da história da música ocidental, desde o Renascimento (Palestrina), passando pelo Barroco (Bach e Haendel), pelo Classicismo (Mozart, Haydn, Nunes Garcia), pelo Romantismo (Bruckner, Gounod) e finalmente o Modernismo (Penderecki, Amaral Vieira).
CONTEMPORÂNEA – É a música erudita dos séculos XX e XXI, criada após os movimentos impressionista e regionalista. Considera-se também contemporânea a música eletrônica surgida na Alemanha a partir da década de 1930. Destituído de uma tendência uniforme, o rótulo “contemporâneo” beira mesmo ao relativismo da compreensão de quem ouve; na maioria dos casos o compositor encontra-se vivo na época de sua locução.
MODERNA – É a música pós-romântica, cujas tendências surgiram durante a primeira metade do Século XX, de caráter quase exclusivamente experimental. No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922 representou o marco histórico dessa modalidade. Esse tipo de música rompeu com as convenções e regras musicais estabelecidas até então, valorizando a inovação e a criatividade. Stravinsky, Ravel, Schoenberg, Gershwin, Villa-Lobos, entre outros.
GOSPEL – Gênero musical contendo mensagens bíblicas, de forma direta e/ou indiretamente. Desde os primórdios, a música que exalte o Deus Todo-poderoso sempre existiu na tradição dos hebreus (prova disto, é o livro de Salmos do Antigo Testamento). A partir de Jesus, as músicas religiosas passam a conter mensagens do evangelho. A música gospel sempre existiu, talvez não com essa denominação específica. O início do destaque desse estilo musical teve origem afro-americana, nascido nas fazendas de escravos no sul dos Estados Unidos. Os escravos cantavam músicas religiosas com mensagens escondidas em suas letras. As mensagens poderiam conter informações sobre terrenos, quais estradas e rios evitar e números de homens patrulhando tais estradas e rios. Essas canções eram cantadas pelos escravos presos, durante a noite, quando se sabia que havia escravos em fuga a fim de orientá-los rumo ao norte livre. Esse costume continuou quando os escravos foram libertados invadindo igrejas e templos afro-americanos por todo os Estados Unidos.
Percebo que usamos comumente e de forma equivocada para nos referirmos à música que cantamos atualmente em nossas igrejas os termos “Gospel” e “Sacra”. Usarei os termos tradicional e moderno no seu sentido diacrônico, ou seja, tradicional é a música mais antiga, representada pelos hinos e moderna a música mais recente, representada pelos corinhos ou “cânticos espirituais”, pelas bandas e música coral jovem, próprios da 2ª metade do Século XX.
CARACTERÍSTICAS DA MÚSICA EVANGÉLICA MODERNA:
• Maior participação congregacional, em contraste aos tradicionais solistas, duetos, trios, quartetos e coros;
• Harmonia e ritmo de estilo popular; utilização de aparelhagens de som cada vez mais sofisticadas, com a produção sonora nem sempre equilibrada;
• Cânticos ecumênicos, sem barreiras denominacionais (“Os sonhos de Deus”, de Ludmila Feber, cantado por todos os evangélicos; “Fico feliz”, de Aline Barros, cantada pelo Pe.Marcelo Rossi);
• Ênfase rítmica com coreografias;
• Não se percebe nesses cânticos a tradicional divisão de “música para jovens” e “música para adultos e idosos”, como existia há mais de três décadas nos arraiais evangélicos;
• Algumas de suas letras são de teologia questionável, com ênfase em temáticas específicas (Adoração, Fé), muitos deles cantados na 1ª pessoa do singular, retratando muito do individualismo próprio dos nossos tempos.
• Música de mercado; pode-se mesmo falar de uma música de consumo. O povo evangélico é um ótimo consumidor. Empresários “não necessariamente” evangélicos descobriram isso e fazem dinheiro através da chamada música Gospel. Uma boa parte da música para o “louvor” de muitas comunidades reflete a influência da indústria fonográfica com a música-mercadoria, caracterizada por uma “padronização”, uma repetição, em todos os sentidos, abafando a criatividade da igreja local.
• Música “descartável” na sociedade do descartável. É o que podemos chamar de arte para o momento ou música para o momento. A função duradoura é irrelevante e a presença da qualidade é, geralmente, inversamente proporcional à duração do uso.
HISTÓRIA- Até a época da reforma a música sacra se resumia ao Canto Gregoriano (Papa Gregório Magno, 590 dC) e à Polifonia. A participação de fiéis no canto congregacional tinha sido proibida desde 364 dC com o Concílio de Laodicéia. É no Século XVI, com Lutero que se reclama a participação dos fiéis no canto congregacional e na língua vulgar, iniciando-se uma nova época musical. Cento e cinqüenta anos depois de Lutero, o Pr.Benjamin Keach introduz o cântico congregacional nas igrejas batistas inglesas, ao cantar um hino após a celebração da ceia, permitindo àqueles que não aprovassem a idéia que saíssem antes do cântico do hino. Keach baseava-se em Marcos 14:26. Keach utilizou a estratégia de ensinar cânticos às crianças, futuros líderes da igreja. Isso foi em 1673. Vários membros de sua igreja o deixaram e Keach, com muita paciência, levou 22 anos para que os cânticos fizessem parte da ordem de culto de sua comunidade. Ora, houve um tempo em que sequer cantávamos e quando começamos a cantar nos cultos, só podíamos fazê-lo “à capella”. E quando nos foi permitido cantar com instrumentos só podíamos com piano, órgão ou harmônio. E quando nos foi permitido tocar um outro instrumento foi o violão. Guitarra não, guitarra era do diabo! O trio elétrico já utilizava uma. E quando deixaram usar a guitarra, limitaram a bateria. Bateria e quaisquer outros instrumentos de percussão lembravam o mundão e os batuques do Candomblé.
A grande contribuição da História é a de revelar para nós a transitoriedade do tradicional e do moderno. Qual o limite entre o tradicional e o moderno? Quanto tempo o moderno será moderno até se tornar tradicional? O tradicional geralmente é santificado e o moderno, demonizado. Isso existe por conta de um preconceito velado de que a música do céu é a música WASP (White Anglo-Saxon Protestant) Branco, Inglês ou Alemão e Protestante. Estas pessoas que pensam desta forma tem o mesmo raciocínio que inspirou os movimentos radicais racistas, tais como Hitler, Ku-Klux-Klan, etc. Dizer que o produto cultural proveniente da Africa é do inimigo é também uma forma velada de racismo. Alegam a associação desses ritmos com o mundano. O hino “Castelo Forte”, composto por Lutero, é emprestado de uma canção popular cantada nos bares alemães de sua época. Algumas denominações religiosas fazem o que Lutero fez, santificam ou procuram mudar o significado mundano associado à música. Outras esperam 20 anos aproximadamente ou o tempo necessário para a associação deixar de existir e então passam a utilizar o determinado estilo em sua liturgia. O pensamento de Lutero é seguinte, só porque o inimigo usou primeiro, não quer dizer que ele é o dono desta combinação. Quando “Noite Feliz” foi publicada, George Weber, diretor musical da Catedral de Mainz a chamou de vulgar, vazia de religiosidade e de sentimentos cristãos. Charles Spurgeon, grande pregador e pastor inglês, detestava as canções contemporâneas de seus dias, as mesmas que hoje são chamadas “hinos”. Pasmem, até mesmo o Messias, de Haendel, foi amplamente condenado como “um teatro vulgar” pelos religiosos de seu tempo. Quando eu era criança fui asperamente repreendido por um pastor batista no interior da Bahia, porque estava utilizando meu violão para tocar hinos na igreja. Os cânticos dos Vencedores por Cristo que, na época, assustavam os mais tradicionais, hoje estão no HCC (Hinário para o Culto Cristão) dos Batistas. Muitos músicos cristãos criativos, compositores, arranjadores e orquestradores, são questionados com a alegação de que eles introduzem elementos estranhos ao gosto musical de seu tempo; sendo assim é fácil afirmar que eles copiam o mundo e não imitam a música do Céu. Mas como poderemos imitar o céu sendo se ainda não estivemos lá? Os compositores mais marcantes e reconhecidos como inovadores ou gênios da música, são aqueles que romperam com o tradicional ou comum em sua época e criaram algo diferente. Se tornaram modernos e agora são tradicionais. Minha geração está aprendendo a resolver isso em relação às gerações passadas. Mas será que teremos a mesma reflexão em relação às futuras gerações? Que tipo de música nos aguarda à frente?
Para o Dr Alcingstone Cunha (2004) é fundamental a reflexão em torno da História. Enfrentamos hoje situações difíceis como fruto da pouca reflexão no passado sobre a música que cantamos em nossas igrejas. As discussões em torno do assunto, na maioria das vezes, recorrem a um subjetivismo exagerado e o resultado é a predominância de duas linhas de pensamento: a música que as pessoas gostam e a música que as pessoas conhecem. Essas duas linhas manifestam-se como força impulsionadora do entendimento de muitos sobre a música sacra e projetam-se no discurso de vários membros da liderança. A conseqüência mais séria causada ao abraçar apenas essas duas alternativas é a falta de visão das possibilidades e ideais a serem alcançados a curto, médio e longo prazo. As decisões a serem tomadas concernentes à música sacra não devem basear-se apenas no costume e na tradição daquela igreja, mas, também, nas necessidades daquela comunidade cristã. Cada igreja, prossegue CUNHA, tem as suas características próprias e está inserida numa realidade sócio-cultural específica. Esses aspectos concorrem para a diferenciação entre as muitas igrejas batistas. Podemos questionar: será que uma igreja batista no interior do Amazonas tem as mesmas características musicais de uma igreja no interior do Rio Grande do Sul? E quanto à liturgia delas? Elas têm a mesma estrutura litúrgica? (Será que precisam ter a mesma estrutura?) Mesmo dentro do campo comparativo em nossa cidade devemos refletir sobre a tendência de se classificar a música executada na igreja como: tradicional, “contextualizada”, moderna, contemporânea, “animada”, parada, antiga, adormecida, tradicional. Na maioria das vezes busca-se o fundamento para tais classificações achando-se que a música na igreja A é “melhor” do que a da igreja B. A questão de a música ser “melhor” na igreja A é um tanto quanto relativa. Deveríamos, sim, perguntar: “será que o programa musical desenvolvido atende às necessidades daquela igreja específica?” Minora-se aqui o sofrimento resultante da luta entre o tradicional e o moderno.
Gostaria de concluir essa breve reflexão sobre o tradicional e o moderno, deixando duas propostas de norteamento da música tradicional ou moderna. Refiro-me, primeiramente ao legado de Edgar Willems (1961) e seus estudos sobre musicoterapia e educação musical. Para Willems, a música não é uma simples realidade material exposta à apreciação estética, mas é portadora de uma energia vital capaz de produzir no ser humano reações vitais importantes tais como ânimo, relaxamento, coragem, enlevo espiritual, alegria, luto, tristeza, paixão, entre outros. Nesse aspecto possui um grande poder comunicativo. Às vezes não precisamos abrir a boca para falar o que sentimos em relação a uma pessoa: basta tocar uma música para ela e teremos dito tudo. Em sua natureza a música possui, segundo Willems (apud Mathias, p.22), três elementos fundamentais: o ritmo+som, a melodia e a harmonia que, na musicoterapia, são tratados como paralelos com elementos constitutivos da natureza humana, a saber, a vida fisiológica, a vida afetiva e a vida mental. A relação entre a natureza musical e a natureza humana é de ordem tributária.
Ritmo+som: movimento do corpo humano ligado às batidas do coração, ao andar, ao respirar- material e fisiológico.
Melodia: Intimamente ligada ao afetivo, traduz sentimento, emoção, a “melodia interior” que devemos ouvir.
Harmonia: É o racional que entra em cena para realizar a junção do afetivo (melodia) com o físico (ritmo) num todo harmonioso.
VIDA HUMANA
RITMO MELODIA HARMONIA
Vida Fisiológica Vida Afetiva Vida Mental
SOM ARTE
Ora, quando interpretamos esses elementos à luz da experiência religiosa, vemos a importância do equilíbrio dessas três partes para expressar a nossa relação com Deus.
Por fim, refiro-me ao legado de Francis A. Schaeffer, em sua análise da arte representativa (SCHAEFFER, 1973, pp. 41-48), na qual, faz uma adaptação para a música evangélica, discorrendo sobre quatro critérios que podem ser usados para aferirmos uma obra de arte musical, qualquer que seja ela, tradicional ou moderna. São eles:
a) excelência técnica: a união entre texto e música; o complexo harmônico; a objetividade da escrita musical mesmo usando elementos intricados.
b) validabilidade (legitimidade): está o artista cristão fazendo arte para somente ganhar dinheiro e fama? Será que a preocupação dele ou dela é ser aceito pelo grupo?
c) conteúdo intelectual: que princípios estão sendo passados através do que cantamos? Em que tem os artistas têm baseado suas composições? Nas Escrituras Sagradas?
d) harmonização entre o conteúdo e o veículo transmissor: o compositor evangélico precisa refletir se o mais importante é o estilo de sua música ou a mensagem dela. Será que esse estilo musical está mais adequado ao texto do que vai ser cantado?
REFERÊNCIAS
BRAGA, Henriqueta Rosa Fernandes. Música sacra evangélica no Brasil: contribuição à sua história. Rio de Janeiro: Kosmos Editora, 1961. 448 p.
CUNHA, Alcingstone. A Música e o Louvor para um Novo Tempo. Recife: 2004. Disponível em <http://www.teologica.br/files/MusicaeLouvorNovoTempoTony.doc> acesso em 02 nov 2007.
MATHIAS, Nelson. Música e seu ministério na igreja. Brasília: Musimed Editora, 1997. 89p.
SCHAEFFER, Francis A. Art and the Bible. Illinois: InterVarsity Press, 1973. 63 p.
WARREN, Rick. Igreja com propósitos. 2ed. São Paulo: Ed.Vida, 1999. 392p.
<http://www.todoexpertos.com/categorias/humanidades/historia/respuestas/807375/la-reforma-protestante-y-la-musica> acesso em 02/11/2007
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