Educação Cristã

CRESCIMENTO CRIATIVO (Prof.Marlesson Rêgo)

 154e73021950f5e7061661e1c753fab4 CRESCIMENTO CRIATIVO (Prof.Marlesson Rêgo)Crescimento Criativo

Marlesson Rêgo – IFPE

    A complexidade do desenvolvimento do ser humano exige uma visão interdisciplinar para a compreensão do processo. Jean Piaget, preocupado com o crescimento mental e moral das pessoas, observou como os jogos são encarados em diferentes etapas da vida. O pesquisador suíço concluiu que, na infância, as regras são aceitas a partir de um referencial de autoridade ou poder. Na adolescência, a pessoa percebe que as regras não “caem do céu” e, portanto, regras e autoridade podem ser questionadas. Na fase adulta, chega o momento de participar da criação das regras. O desafio é criar regras praticáveis e justas, caso contrário o jogo se torna impossível ou sem atrativos. Esse é o desafio do crescimento criativo.

    Se em lugar de “jogos” levarmos as conclusões de Piaget para situações da vida de uma pessoa ou sociedade, diante de regras intelectuais, políticas ou religiosas, perceberemos que a maior barreira para o crescimento criativo é o fundamentalismo, em vários âmbitos. O fundamentalismo intelectual se mostra na arrogância do pensamento determinista, pretendendo explicar uma realidade complexa com resultados apenas parciais e provisórios. Por exemplo, o geneticismo, e seu projeto de programação do comportamento e características do ser humano. O fundamentalismo político, que se encontra em crise na Líbia, na Tunísia, entre outros, é questionado hoje por pessoas desses países, que entraram na adolescência piagetiana e desejam alcançar a maturidade. Descobriram que regras políticas e autoridades inflexíveis e injustas não precisam se manter por tempo indeterminado no poder. O fundamentalismo religioso pode ser exemplificado quando se trata textos “sagrados” como se fossem ditados ou editados por Deus, perdendo-se de vista os aspectos humanos sócio-históricos e econômicos, entre outros, que os originaram.

    Foi contra o fundamentalismo religioso, e suas alianças com outros tipos, que Jesus de Nazaré, um carpinteiro judeu, lutou no Séc. I. Quando o Evangelho de Lucas afirma que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e em graça”, nota-se algumas marcas do crescimento criativo: 1) É mais do que aumento de massa corporal ou encefálica; 2) Não é determinado por idade cronológica (Jesus aos 12 anos discutia com os doutores da Lei); 3) Conta com o auxílio divino. O crescimento criativo, em Jesus, não faz disjunção entre oração, reflexão e ação, relação essa expressa na oração do “Pai Nosso”. Ao chamar Deus de “Pai”, Jesus sugere uma relação madura e participativa entre Pai e Filho, baseada no amor, e não no medo de deixar de cumprir alguma “obrigação” e ser “castigado”. Sugere que essa relação seja assumida de forma madura por seus discípulos aos quais não chamava mais de “servos”, e sim amigos, fazendo um contraste entre duas percepções humanas diferentes do mesmo Deus.

    O assassinato de Jesus foi uma evidência do que é capaz uma aliança entre fundamentalismos político e religioso contra o crescimento criativo. Mas esse ato “terrorista” não foi capaz de frear um processo natural estabelecido pelo Criador. O apóstolo Paulo registra que “era menino e falava como menino”, mas se tornou homem. E faz um convite aos companheiros de Éfeso: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo, em direção àquele que é a Cabeça, Cristo”.

UM ADORÁVEL PROFESSOR (Marlesson Rêgo)

c860432e5f1f72a19180d1f3a766a430 UM ADORÁVEL PROFESSOR (Marlesson Rêgo)  Um adorável professor

Marlesson Rêgo – IFPE

No excelente filme Adorável Professor, o ator Richard Dreyfuss representa um professor de música que tem um filho com deficiência auditiva. Além dessa aparente causa de frustração, um corte orçamentário no departamento de música da escola faz o personagem se questionar: qual o sentido da minha vida? E essa é exatamente a questão da qual depende a felicidade. No filme, o personagem se sente feliz somente quando percebe a importância de sua vida para seu filho e seus alunos. E assim, ele se torna um adorável professor.

A questão tratada no filme é atual, pois todos querem ser felizes, e é também antiga, pois já se encontra no livro da Bíblia Eclesiastes (heb. Qohelet). O termo hebraico sugere “alguém que convoca uma reunião a fim de transmitir conselhos a partir de suas experiências de vida”. Entre as possíveis traduções, tais como “eclesiastes”, “o pregador”, “o filósofo”, “o presidente”, gosto muito da tradução “o professor”, pois lembra alguém que ganha o pão preparando os filhos dos outros para enfrentar os problemas práticos da vida, como se fossem seus próprios filhos. Quanto à autoria, se foi do rei Salomão ou de alguém que se inspirou na vida do rei, o certo é que se trata de alguém que vive ou já passou pela meia-idade, que deseja transmitir o que aprendeu pelo sofrimento e frustrações: perceber os caminhos de Deus entre os caminhos do ser humano, a fim de que trajetórias erradas de vida sejam corrigidas, sob pena de chegar ao final da vida e descobrir que a mesma não teve qualquer sentido. Para tanto, o autor começa escrevendo: “Vaidade das vaidades [...], tudo é vaidade” (Ec 1:2). Nota-se que sua preocupação é com os assuntos que a maioria das pessoas não costuma explorar mais profundamente, porque tal atitude exige que sejamos questionados por Deus e não que Deus seja questionado por nós, como é de costume. Logo, não se trata de um ateísmo pessimista do autor, mas de uma afirmação sobre uma realidade na qual cada um se coloca como centro e finalidade da mesma, onde Deus não é Senhor e sim servo. Por isso, o autor, nosso “professor”, aconselha: “Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos nos quais dirás: ‘não tenho mais prazer’.” (Ec 12:1). Em termos práticos, não é possível viver segundo os valores divinos enquanto estivermos movidos pela vaidade, que falseia a verdade a respeito de nós mesmos. A verdade é que nossa vida nesse mundo é passageira, podendo ser uma vida significativa ou não. Os moços não se preocupam com isso porque investem tempo e energia na aquisição de bens, de posições, acreditando que a felicidade ou o sentido da vida se resume a isso. E o nosso “adorável professor” também acreditava: “Acumulei prata e ouro, as riquezas dos reis e das províncias” (Ec 2:8). Mas, na verdade, tudo foi feito em nome da vaidade, que sacrifica relacionamentos na corrida em busca da “felicidade”. Porém, a felicidade não é uma coisa a ser conquistada, mas um estado a ser desfrutado como consequência de uma vida prestativa, generosa e confiável, uma vida que é querida porque lembra o caráter de Deus, o Criador.

Assim, para o “Eclesiastes”, nosso “adorável professor”, a vida é uma escola que não entra em recesso, idealizada, dirigida e sustentada por Deus, que trabalha pela felicidade de seus “alunos”, que são seus filhos e suas filhas. Feliz “ano letivo” para todos!

O PROFESSOR IDEAL (Prof.Alfredo Oliveira Silva)

 

d1630cb96404a69241100a0b87770b9d O PROFESSOR IDEAL (Prof.Alfredo Oliveira Silva)O PROFESSOR IDEAL

Um dos grandes desafios do magistério, especialmente no começo da vida acadêmica do aluno, é fazê-lo entender a necessidade de aprender e “Somente o professor que aprende bem e continuadamente, pode fazer o aluno aprender”. Não existe mestre melhor do que o exemplo.

Além disso, a legítima capacitação não prescinde a uma atualização constante. O que só é possível pela renovação dos conhecimentos através da reciclagem por isso “Ninguém mais do que o professor, para manter-se profissional, precisa todo dia estudar”, mais do que uma necessidade é uma exigência do mundo globalizado onde vivemos e lecionamos.

No caso específico da educação teológica, o desafio é ainda maior uma vez que o professor precisa estar familiarizado com os teólogos e pensadores do passado, e manter-se em sintonia com o presente, para desta forma ocupar o seu lugar na sociedade pós-moderna como representante legítimo da educação teológica, que anda tão desgastada atualmente. “Para que a educação teológica no Brasil possa encontrar seu rumo, precisamos resgatar a imagem do professor de teologia de nossos seminários”.

“Enquanto o professor se constituir a prova de que a cidadania brasileira não existe, não há o que esperar das escolas, especialmente de nossos Seminários”. Lamentavelmente o homem – e o professor não se constitui em exceção – enquanto produto do meio, anda pessimista quanto a sua função e atuação nos dias de hoje. Esse pessimismo é gerado pelas grandes desigualdades sociais, o que é perceptível também no meio seminarial. Tais diferenças acabam por influir na auto-estima, o que sofre um agravamento se considerarmos o abismo que separa o que se exige do professor, do que lhe é oferecido a título de remuneração. “A remuneração e capacitação do pessoal docente, deve ser a primeira área de aplicação dos recursos da educação”. Quando isso não ocorre o ensino deixa de ser a prioridade da escola, descaracterizando-a.

Um outro fator que obstrue o desenvolvimento do professor é a forma como o ensino é dirigido. “A administração do ensino deve ser feita de maneira participativa, evoluindo daí para um orçamento participativo”. O grande problema é que a instituição de ensino é dirigida de forma autoritária, a variante é a forma oligárquica. Nas duas possibilidades o orçamento, longe de ser participativo, é algo distante quando não misterioso tanto para o discente quanto para o docente. O que acaba gerando problemas de credibilidade para quem administra, e de qualidade para o ensino, uma vez que os mais afetados – e que deveriam ter maior participação – professores e alunos não têm muitas vezes nem voz, nem vez.

Não ter participação, é meio caminho para o desinteresse que acaba gerando a mediocridade na educação, um dos grandes problemas do nosso país. “Não é possível realizar uma educação de qualidade, sem os devidos investimentos nos professores, de outro lado, os meros investimentos não garantem a qualidade, pois a qualidade nasce da qualidade. Sem qualidade de vida, não há qualidade de ensino. Sem remuneração condigna, não há qualidade de vida. Sem qualidade de vida, não há comprometimento efetivo, com a devida dedicação de tempo ao ensino”. Sem realização pessoal não há professor ideal! Desestimulado o professor não contribui para a formação de melhores cidadãos.

É preciso capacitar o professor para que ele desempenhe bem sua missão, e dê a sua parcela de contribuição na construção de uma sociedade mais digna “O plano de capacitação permanente dos profissionais de educação, esbarra no esforço dos empresários da educação, para quebrar o que denominam corporativismo docente, esquecendo-se que é da interação entre os professores que nasce a troca de experiência, em que, em geral, todos aprendem”. É o princípio vigente nas batalhas, é preciso dividir par conquistar! Os donos da educação não são os proprietários do saber, eles sabem que não sabem por isso temem a união dos professores que naturalmente contraria os interesses do capital, que não poucas vezes não coincidem com os do ensino.

Unidos pelo ideal de uma educação libertadora os professores podem dar sua parcela de contribuição à escola. “A participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto político-pedagógico da escola, bem como a participação da comunidade escolar no conselho administrativo da escola, é fundamentalmente necessária à gestão democrática do ensino, visto que, por mais eficiente que a direção da escola seja, não poderá pensar pelos professores, como não poderá produzir os conhecimentos que o professor transmitirá em sala de aula”.

Finalizando, o professor ideal não surge do nada, ele surge quando as condições e oportunidades lhe propiciam o amadurecimento no tempo próprio. “Assim como, a árvore que produz frutos, no reino vegetal, bem como o animal que gera e cria seus filhotes no reino animal, precisam ser devidamente nutridos, o professor, para produzir o fruto que as escolas vendem como conhecimento, precisa ser devidamente nutrido, não somente de bens materiais, mas de bens espirituais, como respeito, consideração e valorização da dignidade humana.” Quando este dia chegar estaremos mais próximos de um a sociedade mais justa, de uma escola mais relevante, e de um professor ideal.

Recife, Janeiro de 1998.

Vocação e Vida Profissional (Prof.Marcos A M Bittencourt)

 

58982cb6b410d49a43e5d48a1fdbb14b Vocação e Vida Profissional (Prof.Marcos A M Bittencourt)VOCAÇÃO E VIDA PROFISSIONALPor Marcos Bittencourt (Mestre em Teologia e Professor do STBNB nas cadeiras de Introd.Antigo Testamento, Teol.Bibl.Antigo Testamento, Exegese do Antigo Testamento, Hebraico Bíblico e Hermenêutica).Conferência proferida no Congresso da Juventude da Primeira Igreja Batista em Jaboatão.

Vocação e vida profissional são temas tão importantes para a reflexão num evento como este destinado à juventude, que não tenho receio em afirmar que da escolha de uma profissão casada com uma consciência vocacional adequada depende uma pessoa que quer ter uma vida de qualidade. Entretanto, devemos levar em consideração a realidade que vivemos no Brasil atualmente, caracterizada por três problemas: Primeiro, os altos índices de desemprego, fazendo com que a auto-estima do povo brasileiro esteja tão em baixa que reflexões sobre temas como vocação e vida profissional fiquem relevados a um segundo plano; partindo dessa primeira situação vem uma outra, a da dificuldade que os nossos jovens têm de conquistar o seu primeiro emprego; Advinda dessas duas primeiras barreira aparece a terceira, que é o conflito entre a vocação e a vida profissional, que eu definiria como o conflito entre o estado de ser e a condição de efetuar. Muitas pessoas estão em determinadas profissões ou executam determinados trabalhos por outras motivações que não as vocacionais. Cabe-nos definir de forma simples quatro termos parecidos, mas não iguais: emprego, trabalho, profissão e vocação, bem como fazer uma reflexão em torno de aspectos motivacionais da vocação e vida profissional.

Emprego é uma vaga no mercado de trabalho oferecida pelo empregador para o exercício de atividade com fins produtivos e econômicos, registrada ou não, onde se estabelece uma relação de subordinação para com a pessoa que preenche a vaga.

Trabalho é aquilo que efetivamente se faz visando fins produtivos, econômicos, sociais, culturais e religiosos, registrado ou não, mas sem necessariamente conter uma relação de subordinação. Por isso pode-se dizer que achar emprego está difícil, mas não se pode dizer o mesmo do trabalho. Se eu pego um pedaço de madeira na mata e faço dele uma escultura para vender na praça; se eu compro 10 quilos de frutas na Ceasa a R$ 50,00 reais e vendo no centro da cidade a R$ 80,00; se dedico a tarde de sábado para pintar as paredes do prédio da minha igreja; tudo isso se constitui em trabalho, ainda que seja ou não para ganhar dinheiro, ainda que seja ou não parte de uma relação de subordinação. O termo trabalho vem do latim trepalium, que designa um instrumento de tortura, como pensavam os povos antigos, escravizando os vencidos numa guerra. Os gregos explicavam o trabalho como o doloroso preço que os deuses cobravam pelos bens da vida, como pensava Xenofonte (PAULO ROSAS, 1970, p. 97). Na mitologia da antiga Mesopotâmia, o trabalho era visto de forma depreciativa. Nos famosos textos do Enuma Elish e Atrahasis, poemas mais antigos que o próprio livro do Gênesis, o trabalho era em princípio uma tarefa penosa da qual os deuses se encarregavam, quando ainda não existiam os seres humanos. Essa tarefa penosa foi imposta aos deuses inferiores que, cansados, rebelaram-se contra os deuses superiores, exigindo providências. Como resultado foi morto um deus inferior e com o seu sangue, misturado à argila, foram criados 07 pares de seres humanos, aos quais foi imposta a tarefa dos deuses, ou seja, o trabalho escravo. Na Bíblia a abordagem do trabalho é ética. Deus trabalha, criando o mundo em seis dias e depois descansa. Mas, no dizer de Jesus: Meu pai tem trabalhado até agora e eu também. O ser humano não foi criado para o trabalho escravo, mas recebeu de Deus o exemplo para o trabalho de administrar o jardim do Éden, regando-o e guardando-o (Gn.2:15), bem como do exercício de certa soberania sobre as demais criaturas, parte integrante de sua semelhança com Deus, portanto, uma bênção. No Gênesis, o trabalho escravo e penoso é conseqüência da queda (Gn.3:19), portanto uma situação de decadência moral e espiritual. Aquilo que os mitos dizem ser a essência do criação, a Bíblia diz ser a corrupção da criação. Não estaria aqui engastado a idéia popular que vê o trabalho como um mal necessário?

Profissão é a escolha para uma ocupação na vida, dotada de qualificações, características, atividades afins, especializações e contra-indicações psicossomáticas ou ambientais (ACHYLLES CHIAPPIN, 1977, p. 33). Possui um caráter polivalente, ou seja, permite-se assumir hierarquicamente diversos valores e atividades profissionais. Conheço uma pessoa que é psicóloga e contadora; um outro é eletricista e pintor; durante 15 anos fui bancário e professor; Nesse caso, sempre haverá uma ocupação principal e outras secundárias, suplementares, por razões econômicas, por motivos assistenciais, por hobbie, e também por motivos existenciais, como o da expansão de personalidade, conforme Achylles Chiappin (1977, p. 28). A escolha de uma profissão se desenvolve numa certa complexidade. Elizabeth Hurlock, citada por Merval Rosa (1983, p. 24), aponta sete fatores dessa complexidade: 1) Diferente das sociedades primitivas, onde a economia se baseava em atividades do setor primário, a sociedade atual tem uma extensa lista de atividades profissionais, num leque aberto que por vezes confunde o jovem candidato ao mundo das profissões; 2) O mundo passa por várias mudanças relativas às habilidades para o trabalho resultantes da crescente automação, a substituição da pessoa pela máquina; 3) O tempo de preparo e o alto custo financeiro desse preparo em universidades que a maioria das profissões exige; 4) A dificuldade de encontrar uma profissão na qual a pessoa não se sinta apenas como peça de uma grande engrenagem, mas na qual adquira um senso de identidade, na qual se torne uma pessoa com um sentimento de missão; 5) Dificuldades relativas à falta de conhecimento do indivíduo de suas capacidades devido, ou a inexperiência profissional, ou à escassez de uma orientação vocacional; 6) Alvos profissionais irrealistas trazidos da adolescência; 7) Ideais relativos a prestígio social e autonomia financeira; Dentro da linha de reflexão a que nos propomos neste ensaio, cremos que a dificuldade de encontrar uma profissão na qual a pessoa não se sinta apenas como peça de uma grande engrenagem, mas na qual adquira um senso de identidade, na qual se torne uma pessoa com um sentimento de missão, é a maior delas. Aliar vocação à profissão é o grande desafio para nós hoje. Entretanto, enquanto não consegue fazer isso devido às razões já descritas, recomendo que seja seguido o princípio cartesiano: enquanto o indivíduo prossegue metodicamente em sua dúvida visando chegar à verdade, ele não pode anular os elementos anteriormente adquiridos no curso de sua vida. Ele só deve deixar um conceito se tiver outro para colocar no lugar dele, isso porque duvida para crer. Siga-se o mesmo princípio para o conflito vocação versus profissão. Enquanto não consigo fazê-los convergir numa única linha de vida, seguro o que tenho e busco com denodo o alvo da vocação. Já que falamos sobre vocação, convém-nos aqui discorrer sobre o termo.

Vocação é a escolha, não de uma ocupação ou atividade, mas de um estado de vida com caráter monovalente. O indivíduo pode ter mais de uma atividade profissional, mas poderá viver um conflito no qual dirá: gostaria muito de me dedicar apenas à essa atividade pois é nela que eu me realizo. A vocação tem uma ligação intrínseca com a consciência de identidade da pessoa. Apesar de ser algo interiorizado, a vocação possui aspectos visíveis e frutíferos, ou seja, reconhece-se na pessoa as marcas vocacionais. Citando um exemplo do ambiente religioso, pode aparecer aquela pessoa que bastante animada chega para o pastor de sua igreja e diz: Pastor, sinto que Deus está me chamando para ser missionário na China. Entretanto, sequer gosta ou se dispõe a falar de Cristo para o seu vizinho. Assim, gostaria aqui de enumerar elementos constitutivos de uma vocação, não se preocupando aqui necessariamente com o termo vocação do ponto de vista religioso, mas no âmbito geral, que também fornece elementos para a compreensão da experiência religiosa. Dentre os elementos constitutivos de uma vocação genuína, tanto quanto à natureza, quanto à evidência, cito os seguintes:

1) Existe uma profunda conexão entre o “ser” e o “fazer”.

2) Evidencia-se uma forte expressão do “eu” profundo e integral, ou seja, o indivíduo encontra-se como pessoa.

3) Existe um sentimento de realização e de satisfação, fruição pessoal derivada da atividade que realiza (experiência do vendedor de autopeças insatisfeito, contada pelo prof. Luis Almeida Marins Filho, em Motivando para Vencer I).

4) Sentimento de missão. Esse sentimento nos leva de Ter a compreensão de que aquilo que fazemos vai além do dever.

5) Como decorrência do sentimento de missão vem o de que somos a pessoa certa ocupando um lugar único.

6) Ainda decorrente do sentimento de missão, advém o sentimento de serviço ao próximo.

7) Um certo grau de entusiasmo naquilo que faz.

icon cool Vocação e Vida Profissional (Prof.Marcos A M Bittencourt) A consciência de estar num projeto de construção, edificando estruturas melhores.

9) A capacidade de sonhar e de estar focado em alvos.

10) Conexão entre aptidão e vontade. Esse último elemento é essencial, visto que muitas vezes diante dos desafios que a vocação impõe à pessoa, surgem barreiras que podem sugerir à pessoa que ela desista do caminho. A pessoa demonstra Ter as aptidões necessárias, mas pode ser vencida pela vontade fraca. E, geralmente, nós somos fracos de vontade(Vide Luis Almeida Marins Filho em Motivando para Vencer I).

E agora gostaria de ressaltar um importante aspecto nessa reflexão, o da motivação. Como ser inteligente e livre o ser humano age determinado por motivos, valores e ideais. Sem motivação não há ação, nem vida. Motivar é Ter motivos. Motivo e valor são as razões pelas quais queremos e agimos. Os motivos são os fatores que indicam a direção à atividade finalística da vida, estimulando-a à ação. A vontade é iluminada pela inteligência que lhe propõe bens e valores, os quais constituem os motivos do querer, que desencadeando a emotividade, objetivam a ação. A inteligência me diz para onde devo ir, mas é a vontade quem me arranca do lugar onde estou. Por isso, a motivação é o coração da vocação. Muitas pessoas estão buscando motivações incorretas e escolhendo, dessa forma, ocupações que as deixarão infelizes. Quero listar aqui algumas delas:

Motivada por valores sentimentais e transitórios. Alguém poderá dizer: Entendo que Deus me chamou para ser pastor porque numa série de conferências senti uma forte emoção depois do sermão; ou ainda: Acho que serei um excelente médico pois certa ocasião prestei socorro a vítimas de acidente, vendo sangue e sem desmaiar;à1a) Ocasião

Geralmente, pais frustrados numa carreira que aspiravam procuram compensar-se no filho, indicando-lhe uma carreira; filhos preteridos na família, tentam agradar os pais, acorrendo para determinada profissão que eles gostam.à2a) Imposição Familiar

Depois de ouvir uma palestra sobre a personalidade humana e a realização profissional um grande gerente de um banco estrangeiro disse: Estou rico, mas sinto-me frustrado vocacionalmente e existencialmente, com um vazio interior.à3a) Imposição Econômica

Razões de prestígio, de moda, sofisticação.à4a) Imposição Social

Momento em que para fugir de uma situação ingrata na família, escola ou sociedade, a pessoa adere a determinada atividade, permanecendo cronicamente nela, como se fosse a vocação de sua vida. Certa vez um seminarista que estava na iminência de ser reprovado na mesma matéria pela segunda vez solicitou-me o seguinte: Professor, me ajude a passar nessa matéria pois a igreja me pressiona; já tentei muitas coisas na vida e não deu certo; esta agora tem que dar; Outra experiência veio de uma jovem que, devido a uma frustração amorosa em sua cidade, veio ao Seminário estudar par ser uma missionária;à5a) Agressividade (Achylles Chiappin, 1977, p. 45)

Advém da dificuldade resultante do dualismo entre o profano e o sagrado. Comumente pessoas acham que as vocações para atividades de profissionais liberais ou atividades chamadas de “seculares”, são profanas. Já a atividade do pastor, do ministro, do sacerdote, são atividades sagradas; Assim, muitos são tentados ou convencidos a deixar as suas atividades seculares para se tornarem pastores, missionários, por não terem uma clara visão de sua atividade profissional como um celeiro de oportunidades de serviço no Reino de Deus. A visão romântica do ministério religioso é apagada com a experiência e, em seguida, vem a desilusão religiosa.à6a) Motivações espirituais incorretas

Concluímos que uma vocação madura fundamenta-se no autoconhecimento pessoal, através da percepção das aptidões, interesses, inclinações, características, vontade e da integração entre os traços de personalidade às profissões correspondentes e firmados em motivações, valores e ideais da pessoa humana. Deve a pessoa que busca a consciência vocacional, realizar, em primeiro lugar, a orientação divina. O Senhor pode iluminar a mente da pessoa para que ela tenha uma clara visão de suas potencialidades. A partir daí deve-se buscar o conhecimento das aptidões e inclinações pessoais, que pode ser feito através do autodidatismo, resultante do olhar para si mesmo; mas também pode a pessoa buscar uma orientação vocacional através de profissionais na área da psicologia disponíveis no mercado. É fundamental que a pessoa defina seu rumo de vida vocacional, de preferência, antes de tomar outras decisões vitais, tais como escolher uma esposa ou um marido, os quais também deverão estar casados com a sua escolha profissional.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHIAPPIN, Achylles. Realização humana vocacional e profissional. 2 ed. Porto Alegre: Ed. Sulina, 1977.

MOHANA, João. Auto-análise para o êxito profissional. 4 ed. São Paulo: Ed.Loyola, 1994.

MOTIVANDO para vencer I. Luis Almeida Marins FilhoFita de Vídeo. São Paulo: COMIT, 1996. Videocassete (58 min), VHS, son., color.

ROSA, Merval. Psicologia evolutiva: psicologia da idade adulta. V.4. Petrópolis: Ed.Vozes, 1983.

ROSAS, Paulo. Vocação e profissão. Petrópolis: Ed.Vozes, 1970.

WHITE, Jerry; WHITE, Mary. Seu trabalho: sobrevivência ou satisfação? 2 ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1994.